Carta aberta do Coletivo de Produtoras e Profissionais do Audiovisual do Interior da Bahia
Para: Irmo Sr. Rui Costa dos Santos Governador do Estado da Bahia Irm.a Sr.a Arany Santana Secretária de Cultura da Bahia Irmo Sr. Walter Pinheiro Secretário da Educação da Bahia Irm.a Sr.a Renata Dias Diretora Geral da Fundação Cultural do Estado da Bahia Irm.a Sr.a Daniela Fernandes Diretora da Diretoria de Audiovisual da Bahia Irmo Sr. Flávio Gonçalves Diretor do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia
Nós, realizadores do audiovisual do interior da Bahia, vimos a público exigir do Governo do Estado que sejam cumpridas as políticas públicas que contemplam o investimento de recursos nas demandas de todo o território baiano, e não apenas concentradas na região metropolitana de Salvador, como vem sido realizada, de forma explícita, nos resultados dos últimos editais.
Nosso estado é um dos maiores do Brasil. Faz fronteira com outros 8 estados, conta com 417 municípios, 7 mesorregiões, 27 Territórios de Identidade, cada qual com suas especificidades, diversidades de cultura e narrativas, linguagens, saberes, fazeres e olhares que representam, de fato, a pluralidade baiana. Um estado que, há muito tempo, acreditamos, deixou de ser limitado à “Cidade da Bahia” e que deve, por princípio democrático, sobretudo nas políticas culturais, respeitar e atentar-se para a imensa maioria de baianos que não se veem representados por essa contínua concentração de recursos públicos na capital do estado.
Mais ainda, entendemos que esta centralização reproduz o mesmo modelo de investimentos, em âmbito nacional, polarizados no centro-sul do país, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, silenciando também aqui a perspectiva da diversidade de uma produção potente e plural, negando voz e vez àqueles que têm outras perspectivas de criação e visões de Brasil. É importante apontar que, nos últimos 05 editais setoriais, 148 projetos da capital foram aprovados, captando o equivalente a R$ 18.752.190,68, enquanto 55 projetos foram de cidades do interior, captando R$ 4.841.761,29, ou seja, apenas 20% dos recursos, durante esses 05 anos, foram aplicados em cidades do interior. Essa informação, por si só, já mostra a centralização de recursos na capital. Especificamente no âmbito do Edital Setorial de 2016, somando os selecionados nas três linhas do edital, as produtoras e cineastas do interior ficaram com a porcentagem de 20,68% de captação dos recursos. Há ainda diversos territórios de identidade que nunca tiveram um projeto aprovado nos editais setoriais de audiovisual. Faz-se necessário, também, a ampliação de políticas que atuem na formação e capacitação de novos agentes aptos a participarem das chamadas públicas para o setor audiovisual, contemplando realizadores e produtores dos diversos territórios baianos, provavelmente gerando, inclusive, maior quantidade e diversidade geográfica dos projetos inscritos.
A gestão da política cultural/audiovisual na Bahia, ao excluir, por mecanismos de seleção não tão democráticos, a maioria dos territórios baianos, fere “a dimensão cidadã, relativa à garantia dos direitos culturais à identidade e à diversidade, ao acesso aos meios de produção, difusão e fruição dos bens e serviços de cultura, à participação na gestão pública, ao reconhecimento da autoria, à livre expressão, e à salvaguarda do patrimônio e da memória cultural”, como bem propõe, textualmente, a própria Lei Orgânica da Cultura do Estado da Bahia. Por isso, acreditamos que os editais devem seguir como critérios de seleção, preceitos da Lei Orgânica da Cultura da Bahia. Conforme o Art. 4o, inciso IV, da Lei Orgânica da Cultura, "São princípios orientadores da Política Estadual de Cultura: IV - Valorização da Identidade, da diversidade, da interculturalidade e da pluralidade". Além do Art. 21, inciso V - "Os mecanismos de fomento previstos no art. 20 devem orientar-se pelos princípios e objetivos estabelecidos nesta Lei, observando os seguintes critérios: V - Descentralização das oportunidades, inclusive entre zonas urbanas e rurais."
Desta forma, pontuamos, a bem destas questões importantes, reivindicações de interesses gerais dos realizadores baianos do interior, a saber:
- Cota mínima de 30% dos recursos para o interior;
- Representação obrigatória em todos os editais de pareceristas que além de ser interior da Bahia também atuem no interior;
- Emissão detalhada de parecer nos editais;
- Eleição de distintos pareceristas para a etapa de seleção dos projetos e outros para avaliarem os recursos;
- Indutor de pontuação. Negros, mulheres, LGBTs e proponentes do interior devem entrar com 01 ponto na frente nos baremas;
- Implementação de políticas para reforma de cinemas em cidades do interior por meio de parcerias com a Agência Nacional do Cinema;
- Oficinas de capacitação audiovisual presenciais no interior. Atualmente elas ocorrem apenas em Salvador;
- Inclusão obrigatória de representantes do interior no Conselho de Cultura;
- Instauração de sedes para recebimento de documentos no interior, facilitando a inscrição/manutenção dos processos burocráticos através dos centros de cultura;
- Maior regulação e equilíbrio na distribuição de projetos selecionados, evitando aprovação de mais de um projeto por produtora e a participação de profissionais-chave (produtores, diretores, montadores) em mais de um projeto financiado por chamamento público;
- Estabelecimento de um prazo de 02 (dois) anos para que diretores, membros de comissão julgadora e representantes de órgãos de fomento possam participar de chamadas junto a produtoras inscritas.
Dispostas estas considerações, expostas aqui em críticas e propostas, fazemos chegar aos órgãos públicos competentes e aos meios de comunicação do estado e de todo o país pelas redes de discussão de políticas para o audiovisual, nosso esforço em abrir novos diálogos e, sobretudo, sanar as distorções que se assentam cada vez mais como padrão de gestão cultural na Bahia.
Assinam essa carta:
Coletivo de Produtoras e Profissionais do Audiovisual do Interior da Bahia