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EM RESPEITO À HISTÓRIA DE CACHOEIRAS DE MACACU #EleNão

Para: Professores, professoras, pesquisadores, pesquisadoras, simpatizantes, admiradores e estudiosos da História e da Cultura de Cachoeiras de Macacu

MANIFESTO E ABAIXO ASSINADO
EM RESPEITO À HISTÓRIA DE CACHOEIRAS DE MACACU
#EleNão

A história de Cachoeiras de Macacu possui um lamentável destaque quando nos referimos ao período chamado de “Anos de Chumbo”, quando vigorou no Brasil, por 21 anos, a Ditadura Militar, que alcançou o poder através do golpe civil-militar de 1964.

Na área rural de Cachoeiras de Macacu, região que então agregava o maior contingente de classe do Município, vários trabalhadores rurais foram perseguidos, o que resultou no fato, comprovado por várias fontes documentais e relatos orais, que Cachoeiras de Macacu foi o município em que mais a Ditadura Militar oprimiu lavradores. Segundo o documento “Material Didático para as oficinas do Projeto de Extensão “Memórias das lutas pela terra no Estado do Rio de Janeiro”, páginas 56/57, “de acordo com os dados levantados pela pesquisa Conflitos por terra e repressão no campo no Estado do Rio de Janeiro, 1946-1988 (MEDEIROS, 2015), o município de Cachoeiras de Macacu concentrou 141 (76,6%) das 184 prisões de trabalhadores rurais registradas em todo o estado do Rio de Janeiro durante a ditadura empresarial-militar em todo o Estado do Rio de Janeiro.

O município também apresenta os maiores números de casos de assassinatos de trabalhadores rurais (22 de um total de 51 registros, ou seja, 43,1%); desaparecidos (três de um total de três, ou seja, 100%); e tortura (cinco em 18 casos, ou seja, 27,8%)”. (Cf. “Material Didático para as oficinas do Projeto de Extensão “Memórias das lutas pela terra no Estado do Rio de Janeiro”).

Também na área urbana, na cidade de Cachoeiras de Macacu, que naquela época tinha como maior classe social a dos ferroviários, trabalhadores e lideranças políticas foram perseguidas como um dos resultados da implementação da Ditadura. O então prefeito do PTB democraticamente eleito pelo povo em 1961, Ubirajara Muniz, e os vereadores Ayram Ribeiro Fernandes, do PSD e José Custódio de Souza, também do PTB, foram cassados de seus cargos eletivos; em Japuiba, foi perseguido, preso e torturado o padre Gerson da Conceição.

Através do Decreto n° 58.341/66, de 03/05/1966, a Ditadura Militar erradicou 7.500 quilômetros de ferrovias no Brasil, entre elas, o ramal de Cachoeiras de Macacu (Porto das Caixas – Conselheiro Paulino), o que trouxe a instabilidade social e abriu um vácuo na identidade da população da então famosa “Cidade dos Ferroviários”.

Na área da Cultura, há registrada a censura de duas músicas em um Festival Cachoeirense da Canção de 1969, conforme documentos arquivados no Arquivo Nacional, para citar ao menos um caso de perseguição à liberdade de pensamento trazida pelo Regime.

Face a esses e outros casos que a memória coletiva de Cachoeiras de Macacu e os registros históricos preservam a respeito da ação da Ditadura Militar em nosso Município; face a agressão à classe artística e à nossa identidade cultural como cachoeirenses; face a agressão aos direitos políticos, sociais e econômicos dos trabalhadores e lideranças civis, políticas, religiosas e comunitárias de Cachoeiras de Macacu e em homenagem a todos os que, publicamente ou não, repudiaram e lutaram contra essas ações autoritárias da Ditadura Militar em Cachoeiras de Macacu, apresentamos este Manifesto e Abaixo Assinado de Repúdio.

O restabelecimento da democracia após a Ditadura Militar garantiu aos brasileiros a possibilidade de poderem livremente escolher os seus candidatos na garantia do direito universal do voto para o cargo de Presidente da República. Além disso, garantiu também a livre organização e manifestação dos cidadãos.

Contudo, a ética frente aos direitos humanos, o livre arbítrio da nossa consciência moral, e o que sabemos sobre os tempos que se passaram, bem como suas reminiscências, não nos permite atravessar esse momento da história nacional sem um posicionamento claro a respeito das razões, espírito e motivações declaradas de candidatos que afrontam a memória e a história republicana, que defendem os atos de arbítrio e violência historicamente cometidos contra Cachoeiras de Macacu pela Ditadura Militar e agridem os consagrados direitos constitucionais e democráticos garantidos na Carta Cidadã de 1988.

Portanto,

Face o exposto acima, NÓS, na qualidade de professores, professoras, pesquisadores, pesquisadoras, simpatizantes e estudiosos da História e da Cultura de Cachoeiras de Macacu, ABAIXO-ASSINADO REPUDIAMOS a candidatura do Sr. Jair Messias Bolsonaro à presidência da República pelas suas declarações públicas de apoio à Ditadura Militar (1964-1985), que tantos males causou ao nosso Município; pela sua defesa à tortura de presos políticos como o padre Gerson da Conceição; pela sua defesa e elogio públicos do coronel Brilhante Ustra; pelas suas declarações ofensivas a negros, indígenas, comunidades quilombolas, mulheres e homossexuais, que também constroem a história de Cachoeiras de Macacu; pelo evidente despreparo proveniente da ausência de conhecimentos básicos em áreas cruciais para o bom funcionamento de um país, principalmente em se tratando de um tão plural, em todos os aspectos, como o Brasil.

Cachoeiras de Macacu, setembro de 2018.
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Esta petição foi criada em 30 setembro 2018
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