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Carta independente da comunidade do Campus Governador Valadares

Para: Conselho Superior da UFJF

Governador Valadares, 31 de janeiro de 2022

Ao
Egrégio Conselho Superior da Universidade Federal de Juiz de Fora

Prezados (as) senhores (as)

Por meio deste documento, os servidores e corpo discente abaixo assinados do campus Governador Valadares se manifestam favoráveis à decisão do Conselho gestor em suas deliberações na sua 38 reunião ordinária e solicitam que a mesma seja mantida.

No dia 13 de agosto de 2021, o egrégio Conselho Gestor do campus Governador Valadares da Universidade Federal de Juiz de Fora deliberou acerca da metodologia de debate sobre a emancipação do campus GV. Na ocasião, houve espaço de fala para todas as vertentes ideológicas e apreciação de todas as situações favoráveis e contrárias à metodologia. Após suficiente discussão, o conselho aprovou uma proposta para ser submetida ao Conselho Superior desta universidade. Cabe salientar que este é um tema recorrente entre a comunidade de Governador Valadares, já tendo sido discutido em várias ocasiões.

No dia 28 de janeiro deste ano, 4 dias antes da submissão da decisão do Conselho Gestor ao Conselho Superior da UFJF, fomos surpreendidos por uma “Nota Pública”, sem local especificado, não datada, não assinada, divulgada em papel timbrado da Associação de Professores do Ensino Superior de JUIZ DE FORA”, tratando da 38 reunião do Conselho Gestor - onde a referida instituição teve VOZ E VOTO. Nessa nota pública, a APES mostra desprezo pela escolha plenamente democrática dos representantes do campus GV e trata a decisão até mesmo de forma JOCOSA, além de CALUNIAR a comunidade universitária deste campus, insinuando relações estranhas com políticos locais.

Iremos discorrer sobre alguns pontos da nota pública divulgada pela APES aos quais discordamos, sendo que alguns consideramos verdadeiramente desrespeitosos para com a Direção e a comunidade do Campus GV.

Dizer que não houve uma abertura democrática para a participação em discussões e debates sobre a questão da emancipação do campus Governador Valadares é praticamente desconhecer o processo ou não ter participado do mesmo. De fato, a APES JAMAIS pedira participação em absolutamente nenhuma pauta tratada no conselho gestor. Estranhamente, requisitou seu direito a voz e voto SOMENTE neste momento, para após deliberação e votação, tentar desqualificar as decisões tomadas neste e por este campus.

Dizer que o protagonismo da emancipação do Campus GV está praticamente nas mãos de interesses políticos é um verdadeiro desrespeito aos profissionais e alunos da universidade que estão lutando por essa emancipação: é como se fossemos um bando de cidadãos sem capacidade de autogestão ou de lutar pela autogestão de uma forma coerente; ou que estivéssemos com interesses políticos terceiros e utilizando o tema da emancipação do campus GV para atingi-los. Tal insinuação caluniosa é INACEITÁVEL e merecedora de imediata retratação por parte da APES.

Ambiguamente, como auto intitulada porta-voz da democracia e falando da sede, a APES parece não precisar se legitimar, mas desconhece a legitimidade e a representatividade do outro. Um discurso ideológico que se faz transparente para provocar um efeito de convencionalidade, de sentido absoluto e universal, no qual a destruição da alteridade se faz pelo lugar comum dado aos pretensos protagonistas da liberdade de elevar, promover e beneficiar.

É óbvio que tal discurso se ampara no também lugar comum da superioridade técnica, seja no sentido acadêmico, de técnica de gestão ou de capacidade de dialogar com a comunidade e de abrir espaços para a manifestação popular e democrática.

O segundo caso é um verdadeiro absurdo, é como se uma comunidade - que pelo primeiro caso já se anula pela própria impotência, na qualificação do discurso de anulação da alteridade protagonizado pela instituição - ou fosse muito ingênua, ou estivesse lucrando algo com uma possível emancipação do Campus. Faz parecer que a APES nos atribui um somatório de incompetência com interesses que chega a ser de uma falta de ética absurda, mas é um discurso garantido pelo próprio Locus da APES, em seus sentidos geográfico e ideológico. E até caberia aqui, uma vez que uma comunidade foi questionada em seus posicionamentos, questionar a própria APES, mas não teria sentido pois já sabemos as respostas: "Nós lutamos pela igualdade, democracia, etc". Na verdade uma luta louvável ao extremo, não fosse o parecer estar implícito que ninguém mais faz isso ou que ninguém mais tem capacidade de fazer isso. Ainda assim, é necessário que a APES responda: qual sua representatividade em Governador Valadares, em que a APES já participou de QUALQUER processo neste campus e qual seu real interesse especificamente NESTE tema, já que nunca havia comparecido ou designado representantes para deliberações do conselho gestor, da qual sempre teve direito de participação.

A nota pública divulgada pela APES termina com uma enorme contradição, quando se afirmam favoráveis à existência de novos campi. Não é isso que parece estar acontecendo.

Também é notório no texto a transferência de uma responsabilidade de preocupações em relações políticas para interesses terceiros que estariam protagonizando a emancipação do Campus Governador Valadares. A grande preocupação política é da própria APES. Isso fica explícito no final do texto, onde afirmam que na conjuntura que estamos atravessando, uma eventual emancipação poderia atuar no sentido contrário de uma universidade pública gratuita e com ensino de qualidade, popular e socialmente referenciada. Pode a APES explicar tal contradição?

Primeiramente é preciso observar que as políticas públicas para educação, por parte do governo federal, são as mesmas para todas as instituições públicas, independentemente de serem novas ou antigas.
A questão de acabar com universidade publica é quase que um apelo, uma vez que esse processo, caso ocorresse, se daria para todas as IES e não apenas para um Campus em emancipação. Dá até para pensar, lendo esse texto, que docentes e diretoria do campus GV estariam interessados em criar uma universidade privada. Nesse aspecto, chega mesmo a ser ofensivo, colocando a APES como protagonista do ensino público e popular, e os professores e diretoria do Campus GV como capitalistas selvagens, energúmenos do caso, uma vez que estariam oferecendo lucro para outras pessoas e destruindo a própria instituição.

É preciso que a APES entenda que a sua opção de trabalho não lhe dá o direito de se colocar como Baluarte na defesa da universidade pública, gratuita e popular. Às vezes é perceptível a colocação de determinados discursos como se estivesse lidando com leigos ou alunos de jardim da infância, quando na verdade estão lidando com docentes que lutam por uma universidade pública, democrática, gratuita e popular. Essa postura da APES garante uma outra enorme contradição em seu discurso, No que diz respeito a uma pretensa valorização de conhecimentos técnicos por parte do campus GV para a criação do discurso da emancipação. O que nós vemos aqui é a instituição APES estabelecendo um discurso como senhora praticamente única da técnica e do conhecimento do que seja uma universidade pública, gratuita e popular.

O discurso ideológico da pretensa preocupação política não tem sentido na prática. A nota pública nos faz parecer que a APES não aceita que políticos que não sejam da sua preferência tenham algum papel na emancipação deste campus. Deixamos claro que tal atitude NÃO NOS INTERESSA e que, caso este seja um fator preponderante para a APES, que fique claro que NÃO NOS REPRESENTA. O nosso interesse por uma instituição pública, gratuita e de qualidade é e será sempre SUPRAPARTIDÁRIO, de modo que nos colocaremos contra qualquer entidade ou espectro político que venha a ameaçar esse sistema. Por óbvio, nos colocaremos contrários à APES caso a mesma coloque interesses políticos acima dos interesses da nossa universidade. Além disso, pelo discurso da APES, parece que se governo e UFJF sede decidissem imediatamente favoráveis à emancipação, tudo estaria resolvido em poucos dias. Isso somente reforça o profundo desconhecimento dessa entidade dos processos a que ela se arroga detentora do único caminho, uma vez que na verdade seria o início de um processo que não é possível de ser finalizado no governo atual, quiçá nos próximos 4 ou 5 anos.

Quanto à ideia de necessariamente a discussão dever ser estendida a comunidade da sede. E o que esta tem feito pelo Campus avançado GV? Qual a nossa representação na sede? Quais questionamentos e solicitações do campus avançado GV são resolvidos pela sede? Como está a construção do nosso Campus? Teremos lugar para dar aula no futuro? Temos verba equivalente para infraestrutura e para fomento de pesquisa e extensão? O que a sede Juiz de Fora dialoga com Governador Valadares?

Por fim, deixamos claro nossa confiança no conselho gestor, constituído através de eleições livres pelos pares, nomeado pela comunidade como LEGÍTIMO REPRESENTANTE, atento às necessidades locais e aos apelos contínuos da comunidade deste campus. Manifestamos ainda RESPEITO E APOIO à decisão tomada pela maioria dos representantes, dentro da total legitimidade. Finalmente, reiteramos o REPÚDIO a qualquer tentativa de obstrução do processo legítimo a que estamos desejosos - especialmente por alguém cujo único objetivo demonstrado até aqui é não aceitar opiniões contrárias.

Como organismo representativo de importância, que pelo menos esperamos que a APES seja, desejamos que exercitem a autocrítica e revejam seus discursos, ao menos para se tornarem menos ofensivos.

Portanto, solicitamos que seja MANTIDA a decisão do Conselho Gestor.


Na certeza de sua compreensão, nós abaixo assinados subscrevem-nos


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Esta petição foi criada em 31 janeiro 2022
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