Nota de Repúdio e Pedido de Investigação - Manipulação de crianças e adolescentes na Marcha contra o Aborto
Para: Ministério Público e demais Autoridades responsáveis
NOTA DE REPÚDIO E PEDIDO DE INVESTIGAÇÃO
Repudiamos veementemente a utilização e a manipulação de mais de 500 crianças e adolescentes da Rede Municipal de Educação, em horário escolar, para dar volume à esvaziada 15ª Marcha em Defesa da Vida e Contra o Aborto realizada no último dia 18 de maio em Goiânia.
“Crianças de 6 a 14 anos, algumas delas mais novas” de pelo menos “seis unidades de ensino” foram levadas para caminhada “por cerca de 2,5 quilômetros nas ruas do Centro de Goiânia, entre 14 e 16 horas, sob um calor de 30º C para fazer volume à marcha, enquanto organizadores usavam cinco carros de som para discutir contra o aborto, chamando o ato de infanticídio, contra mulheres que interrompem a gestação e em defesa de projetos de lei. Além dos alunos, o evento contou com a presença dos organizadores, professores e funcionários das escolas, políticos bolsonaristas e assessores”. (O Popular, 20 de maio de 2023).
Segundo a reportagem foram utilizados transporte da Companhia Municipal de Transporte Coletivos (CMTC), que trabalha em parceria com a Prefeitura de Goiânia, para o deslocamento dxs estudantes das Escolas até o Centro de Goiânia. Além disso, a reportagem relata o desvio de função de servidores públicos: “professores contaram terem visto servidores da pasta (SME) nas escolas ajudando a organizar alunos que foram para a marcha”.
A reportagem evidenciou ainda a esdruxula manipulação dos pais e mães para a autorização da participação das crianças e adolescentes na flopada marcha. “Quem procurou a direção das escolas ouviu respostas evasivas. “disseram que era um movimento pela paz, pela vida, mas que não sabiam direito porque era um convite da rede (como se referem à SME)”.
Destacamos a grosseira manipulação emocional e psicológica de crianças pequenas, de 6 anos ou menos, e adolescentes para a criminalização de mulheres e a pregação preconceituosa e difamatória das mulheres que passam pela interrupção de gravidezes:
“Muitos estudantes que estiveram presentes na marcha faltaram na aula alegando cansaço e dores musculares. Também comentaram que os que foram para a escola estavam confusos sobre o teor da manifestação. “Alguns ficaram perguntando (na sala de aula) o que é aborto e acreditando que as mulheres que interrompiam a gestação eram más e assassinas, outros não entenderam o que estava sendo discutido”.
Ressaltamos a gravidade da exposição e manipulação psicológica de crianças e adolescentes, em pleno horário de aula, ao conteúdo fundamentalista religioso, repleto de hostilidades e difamação de mulheres que interromperam a gravidez, atribuindo-lhes crimes de assassinatos de infantes. Ratificamos que essa Marcha não pode ser considerada Atividade Pedagógica, pois fere os princípios do Estado Laico e os Direitos Humanos e Fundamentais garantidos às Mulheres pela Constituição, legislação pátria e direito internacional.
Assim como é total absurdo a utilização da imagem das crianças, com uniforme escolar, por políticos de extrema-direita, com deliberado interesse publicitário eleitoral. Ressaltando que não houve a completa informação para a autorização expressa dos pais e mães dessas crianças, evidenciando também a grotesca manipulação dos interesses públicos e educacionais.
Pelo exposto, as organizações abaixo assinadas solicitam as Autoridades Responsáveis que procedam com as investigações para apuração dos possíveis crimes praticados: desvio de função de servidores e servidoras públicas; uso de recurso público para finalidades particulares; improbidade administrativa; violência contra as mulheres; incentivo à intolerância e à discriminação de mulheres; desrespeito ao Estado Laico e a liberdade religiosa; uso de crianças e adolescentes para interesse particular e partidário.
Goiânia, 20 de maio de 2023
Articulação de Mulheres Brasileiras – AMB Goiás
Federação de Mulheres de Goiás
Movimento Policiais Antifascismo