MANIFESTO DA ACLA A FAVOR DA MANUTENÇÃO DO HINO DE SC
Para: DEPUTADOS ESTADUAIS DE SC E PÚBLICO EM GERAL
MANIFESTO DA ACLA - ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS E ARTES A FAVOR DA MANUTENÇÃO DA LETRA E MÚSICA DO HINO DO ESTADO DE SANTA CATARINA
A ACLA – Academia Catarinense de Letras e Artes, entidade que congrega escritores, músicos, artistas visuais e das artes cênicas do Estado de Santa Catarina, fundada em 05 de julho de 2003 e reconhecida pelo artigo 173 da Constituição do Estado de Santa Catarina a partir da Emenda 48, vem a público manifestar a sua posição a respeito da proposta de alteração do Hino do Estado de Santa Catarina que tramita na Assembleia Legislativa do Estado por iniciativa do Deputado Ivan Naatz (PL).
Sobre os autores do Hino:
José Brazilício de Souza viveu na antiga Nossa Senhora do Desterro. Um homem multifacetado para a época, testemunha da virada do século das ciências, o 19, para o das descobertas, o 20. Para conhecê-lo é preciso revisitar o astrônomo, recantar o músico e reencontrar o professor. Impõe-se observar céus, desempoeirar bibliotecas, acessar manuscritos. Exige descortinar a velha cidade, na qual vivia a elite branca e orbitavam os ideais abolicionistas; requer visitar o território protegido pelo cais onde acostavam embarcações; demanda contemplar a cidade de hoje, em que a poluição luminosa cega as mesmas observações astronômicas feitas no passado. Brazilício foi membro da irmandade das estrelas. Também da confraria das notas musicais. Autor da música do Hino do Estado de Santa Catarina, composição pela qual é lembrado. Ora sobrepunha o olho ao ouvido, ora o ouvido ao olho. Movia-se à sombra da nuvem que se escondia, à luz solar que iluminava as ladeiras, às páginas do livro que abria. Ensinou sobre eclipses e cartas náuticas, piano e violino, meridianos e pontos cardeais. Mantinha os pés no chão de Desterro e olhos no firmamento. Fazia correlações entre o cosmo divino e o homem terreno. Vivenciava uma mística sem um Deus, o qual reconhecia, mas a quem supostamente não recorria. Autodidata, aluno, mestre. Discreto, simples, eclético. Assim foi o tempo de Brazilício (1852-1910). (Fonte: Angela Bastos – Diário Catarinense).
Horácio Nunes Pires, compositor, jornalista, poeta e teatrólogo, dono de extensas obras catarinenses. Provém de uma família de intelectuais e sempre batalhou como um homem de cultura. Filho de Anfilóquio Nunes Pires e Henriqueta Nunes Pires, nasceu no Rio de Janeiro em 3 de março de 1855. Em 1859 foi residir com a família na cidade de Lages-SC. Seu pai dirigia uma escola primária e nela Horácio e seus irmãos Eduardo e Gustavo aprenderam a ler, escrever, gramática e aritmética. Horácio e sua família eram voltados à cultura, no entanto, com o passar do tempo, seu pai e os irmãos abriram um colégio que ensinavam português, inglês, e francês. Horácio exerceu muitos cargos públicos, alguns gratuitamente. Escreveu, ao longo de sua vida, peças teatrais – dramas. Casou- se com Flora Paulina da Silva e não tiveram filhos, vindo a falecer em Florianópolis em 20 de maio de 1919, data em que a Escola de Educação Básica Horácio Nunes homenageia o patrono. (Fonte: Prof. Ricardo Mees – blog).
Sobre o Hino:
O Hino do Estado de Santa Catarina foi introduzido em 1892 e finalmente sancionado por lei estadual em 6 de setembro de 1895, durante o governo de Hercílio Luz. Tem letra de Horácio Nunes Pires e música de José Brazilício de Souza. Ao analisarmos a letra podemos concluir que se trata de um poema muito bem escrito, que descreve o povo catarinense, ao menos o do final do século 19, como sendo cordial e feliz com a então recente abolição da escravidão, um sentimento de pertencimento ao país e aos bens maiores que são a liberdade e a igualdade entre todos, e estes bens ultrapassam, a despeito de forças contrárias, todas as fronteiras, sejam as físicas, sejam as de tempo. É um erro afirmar que a letra do Hino é datada e pouco representativa da história do povo catarinense. Sim, a letra expressa o sentimento presente à época de sua composição e é isso que naturalmente ocorre com toda obra artística, a exemplo da letra do Hino Nacional Brasileiro. O Hino é um símbolo que traz um recorte do tempo em que foi escrito, no entanto, o mais importante é que esse recorte nos traz até hoje um grito a favor das liberdades e da justiça social. Se formos modificar tudo o que foi feito no passado baseados na premissa da representatividade, sem considerarmos os seus importantes valores transcendentais, então teremos que mudar também a bandeira do Estado, pois para além do trigo e do café ali representados, há muitas atividades e paisagens que não se acham presentes na bandeira. Musicalmente, é um belo Hino! Se os catarinenses não o cantam é por falta de empenho institucional para uma ampla divulgação e de ensinamento nas escolas, por exemplo. Em reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo de 07 de janeiro de 2021, de autoria da jornalista Carolina Moraes, que trata de conteúdo racista de muitos hinos estaduais, os hinos de Santa Catarina e do Rio de Janeiro são os únicos destacados como abertamente favoráveis à abolição da escravidão e à igualdade entre os homens. Entendemos nós, acadêmicos e acadêmicas da ACLA, que a discussão seria justificável se o conteúdo da letra de nosso Hino fosse frontalmente contrário aos sentimentos e princípios do povo catarinense. Mas temos certeza de que a liberdade e a igualdade, sejam elas aludidas de forma direta ou poética, não estão fora desses princípios. Uma obra de arte centenária não deixa de ser obra de arte com o passar do tempo. Pelo contrário. E é simplista achar que um símbolo precisa ser necessariamente compreendido de primeira mão, por todos. Um símbolo é uma alegoria, uma condensação de informações, um sinal, um signo, e geralmente precisa ser descrito, explicado, dissecado. Isso não é um mal e sim uma condição. Que brasileiro soube no primeiro olhar, com exceção dos seus criadores, que as estrelas que compõem a nossa Bandeira Nacional representam as unidades da Federação? Sempre coube aos educadores, às instituições, aos formadores de opinião, explicar, interpretar. Talvez seja apenas esse empenho que nos falte em relação ao belo Hino de Santa Catarina.
Pelo acima exposto, a ACLA manifesta-se pela manutenção e preservação do Hino do Estado de Santa Catarina composto por José Brazilício de Souza e Horácio Nunes Pires.
Compõem a ACLA os seguintes Acadêmicos e Acadêmicas:
Alberto Heller – Pianista, Compositor e Arranjador
Antônio Cunha (Presidente da ACLA) – Dramaturgo, Diretor e Ator
Augusto de Abreu (Tesoureiro da ACLA) - Escritor
Carlos Besen – Maestro e Compositor
Carlos Franzoi – Artista Visual
Cássia Aresta – Artista Visual
Denise de Castro – Pianista, Cantora e Compositora
Dirce Körbes – Artista Visual
Douglas Hahn – Cantor Lírico
Ivan Alves Pereira – Escritor e Artista Visual
Janice Pavan - Escritora
Jeferson Della Rocca – Maestro
José Ronaldo Faleiro – Artes Cênicas
Juliana Hoffmann – Artista Visual
Linda Poll – Artista Visual
Loro de Lima – Artista Visual
Luiz Gustavo Zago – Pianista, Compositor e Arranjador
Luz Carpin - Escritora
Mércia Mafra Ferreira - Maestrina
Nereu do Vale Pereira – Escritor e Historiador
Néri Pedroso (2ª Secretária da ACLA) – Jornalista e Crítica de Artes
Rudi Bodanese – Artista Visual
Sulanger Bavaresco (1ª Secretária da ACLA) – Dramaturga, Diretora e Atriz
Susana Bianchini – Artista Visual
Teresinha Heimann – Professora, Pesquisadora e Arte-Educadora
Wesley Collyer - Escritor
Valmor “Nini” Beltrame – Professor, Pesquisador e Diretor de Teatro
Vera Collaço – Professora, Diretor de Teatro e Escritora
Zeca Pires - Cineasta