Uso de smartphones pelos alunos da escola
Para: À Direção da Escola PASB e ao Conselho de Administração
Nós, pais da comunidade PASB, visando um ambiente cada vez mais favorável ao aprendizado dos nossos filhos e atentos às pesquisas sobre saúde e aprendizagem infantil, vimos, através desta carta, externar algumas preocupações relativas ao uso de celulares smartphones pelos alunos na escola.
O uso de smartphones por crianças e adolescentes vem sendo alvo de pesquisas e debates em todo o mundo. Atualmente, são inúmeros os estudos que comprovam o impacto do uso excessivo para indivíduos dessa faixa etária. Sabemos que o “letramento" tecnológico é uma premissa, no entanto, o uso recreativo e em ambiente escolar vem sendo combatido, principalmente após a pandemia, pelos efeitos deletérios percebidos.
Estudos demonstram que a simples presença de um celular no ambiente de aprendizado já traz efeitos negativos no que diz respeito à capacidade de concentração. A exposição às telas promovem liberação de dopamina, geram estímulos que pioram o controle emocional, agressividade, podem gerar transtorno de humor como depressão e ansiedade, déficit de atenção, além de gerar vício em tecnologia. O uso de telas está relacionado à menor exposição ao ócio, redução de capacidade cognitiva e da criatividade e flexibilidade, habilidades estas tão valorizadas atualmente. Há o risco de exposição a cyberbullying, a conteúdos sensíveis sobre alimentação, sono, sexo, formas de machucar a si mesmo, experiências com uso de drogas. Trazem também problemas físicos, como: miopia, "visão cansada", dores de cabeça, alteração na postura pela inclinação para a frente da cabeça para a visualização do dispositivo até mesmo com comprometimento do bom funcionamento da coluna cervical.
É evidente o efeito negativo na socialização das crianças e adolescentes por preferirem o ambiente virtual. As redes sociais promovem menor interação social, menor convívio interpares, menor exposição à diversidade (uma vez que os conteúdos oferecidos são sempre reforçados pela sua preferência), o que, por consequência, afeta o desenvolvimento de habilidades socioemocionais das crianças e adolescentes. A simples presença de um aparelho celular é suficiente para impedir atividades coletivas e de interação no “mundo real".
Como se não bastassem os aspectos negativos acima citados, não se pode olvidar que o uso dos celulares expõe as crianças e adolescentes ao risco de terem acesso a conteúdos inadequados mesmo no ambiente escolar, assunto este de máxima seriedade e urgência. A exposição precoce a conteúdos violentos ou sexualmente explícitos podem ter um impacto negativo no desenvolvimento emocional e psicológico que perdura até a fase adulta, por vezes, pela vida inteira. Ademais, podem influenciar negativamente a formação de valores, atitudes e comportamentos dos jovens (https://jus.com.br/artigos/ 106253/a-ausencia-de-supervisao-de-criancas-e-adolescentes-dentro-do-mundo-virtual- e-os-reflexos-da-transferencia-dessa-violencia-ao-mundo-real).
Em razão disso, há um consenso entre os especialistas quanto à necessidade de limitação de tempo de exposição a telas, haver supervisão e orientação de um adulto quando da utilização dos celulares por crianças e adolescentes.
Conforme dispõe o Estatuto da Criança e Adolescente, o princípio do melhor interesse da criança deve ser respeitado pelo Estado, sociedade e família:
Art. 4o - É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
A responsabilidade de proteger as crianças e adolescentes dos riscos do uso da internet também é da escola. A escola deve, assim, oferecer um local seguro para o desenvolvimento das crianças e adolescentes, e esta é uma das missões da PASB:
“A Pan American School of Bahia prepara seus alunos para enfrentar desafios como cidadãos do mundo, confiantes e íntegros. Nossos programas americano e brasileiro de excelência são oferecidos em um ambiente seguro e acolhedor, a fim de capacitar nossos alunos a alcançar o máximo de seus potenciais” (https://pasb.com.br/missao-visao-valores-e-crencas/)”.
Ocorre que, ao permitir o uso de celular smartphone pelas crianças e adolescentes no âmbito escolar, não supervisionado por um adulto, a PASB está sendo negligente e não está cumprindo o seu papel. Isto gera imensa preocupação, uma vez que os alunos podem estar sendo expostos a conteúdos inadequados e, portanto, não estão seguros. Mesmo que o acesso ao celular somente seja permitido para alguns alunos no “front gate”, ainda assim não há um controle pela escola do conteúdo que está sendo acessado nas suas dependências.
Além disso, as crianças e adolescentes, cujos pais decidem que não levarão celulares para a escola, estão da mesma forma expostos ao aparelho, já que a PASB também não controla essa situação, conforme se verifica da foto em anexo.
Nesse referido registro fotográfico, verifica-se que há apenas um celular, mas há quatro crianças tendo acesso ao aparelho dentro da escola (portanto ao seu conteúdo), sem qualquer supervisão de um adulto. Qual o teor do conteúdo acessado? É adequado para a faixa etária? Onde está o adulto supervisionando o uso do celular? Por que as crianças que não levaram celular para a escola estão tendo acesso ao aparelho?
Assim, indaga-se: a escola está proporcionando um ambiente seguro para os seus alunos de forma integral e a todo o tempo de permanência na instituição?
Há relatos de crianças e adolescentes que tiveram acesso a conteúdo de pornografia e violência no ambiente das escolas ao redor do mundo. Essas situações não podem ser ignoradas pela PASB, em atenção ao princípio do melhor interesse da criança e ao seu dever de vigilância sobre os seus alunos enquanto estiverem no estabelecimento educacional. A escola é responsável pelos alunos e pelo que ocorre dentro das suas dependências.
Reitere-se que, além do problema de acesso a conteúdos inadequados (o que é grave por si só), há também o efeito na socialização dentro da instituição. O acesso ao aparelho dentro da escola, assim como citado fora dele, diminui o desenvolvimento das habilidades socioemocionais dos alunos. As crianças e adolescentes convivem através de um objeto, que é o celular, e não mais um com o outro, conforme retrata a foto, em anexo. Tal situação gera um ambiente com falta de urbanidade, favorece o bullying, redução da empatia mútua, gera a falta de respeito uns com os outros, como explica Vanessa Cavalieri, juíza da Vara da Infância e da Juventude.
No sítio eletrônico da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, verifica- se que foi feita uma audiência pública para debater o uso dos celulares smartphones nas escolas. A psicóloga Débora Sampaio, mestre em Psicologia de adolescência e especialista em dependência tecnológica, se manifestou acerca do tema e chamou a atenção para uma situação que todos sabem que acontecem nas escolas, mas os adultos simplesmente ignoram, em detrimento do bem estar físico e mental dos mais vulneráveis, que são as nossas crianças e adolescentes. Pela importância das suas colocações, transcreve-se abaixo trecho da sua fala:
“Eu me lembro das brincadeiras em sala de aula, dos professores, enfim, eu só tenho boas memórias. E hoje a gente tem tido uma escola diferente. Uma escola silenciosa na hora do intervalo. Não existe mais aquela gritaria. As filas não têm mais aquelas conversas, porque são crianças e adolescentes de uma geração ‘cabeça baixa’, que está o tempo inteiro olhando para o seu celular. E por quê? Porque isso causa dependência. Os dispositivos e as redes sociais foram criados para nos tornar dependentes, e estão conseguindo. Se nós, adultos, que já temos um cérebro maduro e plena capacidade de se autorregular, nos perdemos nisso tudo, imaginem as nossas crianças e adolescentes...”.
“Nós temos visto diariamente o desgaste dos professores em sala de aula, que se cansam de pedir para os alunos guardarem seus celulares. E o fato é que, hoje, nós já estamos correndo atrás do prejuízo. O relatório da Unesco nos mostra que estamos vivendo uma ‘epidemia de distração’. A Neurociência já sinaliza comprometimentos nesta geração de crianças e adolescentes, apontando que seus cérebros já se desenvolvem de forma diferente. Também já há sinais de comprometimento de empatia, porque os algoritmos só nos oferecem o conteúdo que nos interessa. Então, eu não lido mais com pensamentos contrários aos meus, e isso leva à intolerância e à dificuldade de lidar com o diferente”
(https://www.al.rn.leg.br/noticia/30227/uso-excessivo-de-smartphones- nas-escolas-e-tema-de-debate-no-legislativo- potiguar#:~:text=A%20Unesco%20aponta%20ainda%20que,riscos%20e %20danos%20on%2Dline).
Não é somente dentro da sala de aula que a importância da escola se expressa na vida das crianças e adolescentes. A escola deve ser um local onde deve ocorrer o desenvolvimento das habilidades interpessoais, relacionais e socioemocionais, conforme aponta a psicóloga acima citada. Isso deve ocorrer com os alunos pequenos até o último ano escolar. No entanto, o uso do celular smartphones dentro do ambiente escolar tem um impacto negativo sobre esse objetivo.
Pontue-se, ainda, que vários países estão banindo os celulares nas escolas. Alguns exemplos são: algumas províncias do Canadá, Alemanha, Australia, França, Inglaterra, Finlândia. Nos Estados Unidos, alguns estados também adotaram a mesma restrição, a exemplo de Oklahoma,Vermont e Kansas.
Recentemente, a Prefeitura do Rio de Janeiro proibiu o uso de celulares nas unidades escolares da rede pública municipal de ensino. Os alunos, do ensino infantil ao ensino médio, não podem usar o aparelho dentro da sala de aula e nem no horário de intervalo e recreio.
Diante do exposto e certos de que a escola visa promover uma experiência positiva para os seus alunos, atentando para a permanente segurança e integridade deles, os pais, que ora assinam o presente documento, solicitam que seja proibido o uso de celulares smartphones pelos alunos no ambiente da escola.
Temos ciência de que muitas famílias utilizam deste recurso para comunicação direta com os filhos e que é um facilitador de logística em muitos aspectos, porém entendemos que há meios de comunicação efetivos e mais seguros como recados através do office e/ou celulares analógicos, ainda disponíveis no mercado. Por fim, acreditamos esta ser uma medida que trará grandes benefícios para a comunidade escolar e um diferencial no desenvolvimento destas crianças e adolescentes.