CARTA DE DENÚNCIA CONTRA OS ATAQUES ÀS RETOMADAS INDÍGENAS
Para: Estudantes, professores, reitorias, faculdades, grupos de pesquisa e a comunidade acadêmica em geral, além de entidades democráticas, sindicatos, movimentos populares e apoiadores de todo o Brasil
CARTA DE DENÚNCIA CONTRA OS ATAQUES ÀS RETOMADAS INDÍGENAS
Vimos através desta carta, denunciar os crimes do latifúndio e nos solidarizarmos com a retomadas do povo Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul e do povo Ava-Guarani no PR, que vem sofrendo com ameaças, incêndio de suas casas, privação do sono, assédio de mulheres e crianças, envenenamento da água dos rios, além de espancamentos e ataques com armas de fogo. Tais graves violações ocorrem contra o avanço das retomadas que ocorreram no último mês em resposta à morosidade de anos do governo na demarcação das terras, que são comprovadamente indígenas. Dentro desse contexto, os criminosos ataques aumentam cada dia mais e os latifundiários da região, organizados pela extrema-direita no movimento Invasão Zero, preparam um verdadeiro massacre contra os povos originários.
Há um mês, o Mato Grosso do Sul se transformou em um verdadeiro teatro de guerra. O modus operandi do grupo criminoso Invasão Zero ocorreu em diversas regiões promovendo o terror contra os indígenas Guarani-Kaiowá. Os ataques ocorreram nas retomadas da Terra Indígenas, Panambi – Lagoa Rica: Itay, Guyra kamby’i, Gaaro’ka e Tajasu Iguá, além dos tekohas Taquara em Juti e Kunumi no município de Caarapó.
Os territórios foram cercados por bandos de pistoleiros armados, que montaram acampamentos a poucos metros das retomadas. As mulheres e crianças relataram sofrer diferentes formas de assédio, inclusive com o sobrevoo de drones que as filmam enquanto se banham. Em várias dessas regiões houve relato de incêndios nas matas provocados por esses pistoleiros a mando dos latifundiários, em outras os barracos foram destruídos ou incendiados.
A situação mais grave ocorre hoje na terra indígena Panambi-Lagoa Rica em Douradina, onde um indígena foi capturado e teve seu braço violentamente quebrado, outros desapareceram e voltaram com sinais de espancamento. Uma jovem, uma “Nhandesy” (rezadora) de 63 anos e um senhor de 56 foram baleados. Durante a noite, os criminosos ligam potentes refletores de luz para impedir que os indígenas durmam e descansem. Além disso, na cidade tem se promovido um boicote em que os comerciantes não vendem nada para os indígenas.
Há relatos de contaminação da água dos rios com agrotóxicos na tentativa de matar os indígenas por envenenamento, agentes de saúde e alimentos foram impedidos de entrar nos territórios. Essa violência tem ocorrido mesmo com a presença da Polícia Militar, da Força Nacional e do Ministério dos Povos Indígenas, o que coloca o estado brasileiro na condição de conivente e cúmplice da tentativa de massacre que se gesta frente a luta pelo direito democrático as terras que são comprovadamente dos Guarani-Kaiowá.
O MPI, em meio a grave crise foi, “dialogar com os latifundiários”, depois pediu para os Guarani-Kaiowá “serem mais pacíficos” afirmando que não se responsabilizarão por um massacre e pressionando para os indígenas aceitarem um acordo em que abririam mão da maior parte de seu território, proposta que visa privilegiar os interesses econômicos dos monopólios da terra. Isso tudo ocorre ao mesmo tempo que em Brasília, está ocorrendo um acordão entre Congresso, STF e Governo Federal, junto ao MPI para aprovar o Marco Temporal e apresentar a proposta do governo de “compra de terras”, o que significa na prática enterrar de vez a demarcação de terras indígenas em nosso país.
As áreas têm sido cada vez mais militarizadas, de modo que, qualquer um que entra ou sai é abordado pela polícia e identificado, criminalizando o apoio à luta indígena. Ao mesmo tempo em que grupos paramilitares se formam para atacar os indígenas, divulgam suas ameaças em redes sociais, cometem crimes, mas seguem impunes e circulando livremente.
Essa impunidade levou a tentativa de massacre no último dia 4 onde 10 indígenas ficaram feridos, sendo dois gravemente. Dos casos graves, um foi baleado no pescoço e outro na cabeça. As imagens caberiam melhor em um filme de horror, rostos ensanguentados, buraco na cabeça em que pulsava sangue, um idoso repleto de hematomas por espancamento e até crianças cobertas de sangue.
Este é o cenário de guerra e impunidade que se estabeleceu em MS, os fatos demonstram uma situação de extrema violência em que os direitos mais básicos e fundamentais do povo Guarani-Kaiowá estão sendo violados. O povo Guarani-Kaiowá precisa ter o direito ao seu Tekoha (território sagrado) garantido integralmente. Sendo assim não podem viver sob a constante ameaça de reintegração de posse por isso exigimos que essa medida se mantenha fora de cogitação, além de que os acampamentos dos grupos de pistoleiros tem que ser imediatamente desmontados visto inclusive que os mesmos planejam o genocídio escancaradamente, para que assim parem os ataques.
Os mesmos crimes tem ocorrido também contra as retomadas indígenas do povo Ava-Guarani nos municípios de Guaíra e Terra Roxa no Paraná, em que os latifundiários têm atacado covardemente e destruído barracos tentando retirar à força os indígenas, contando com total apoio do governo estadual, que inclusive está criminalizando qualquer tipo de apoio impedindo mesmo a FUNAI de trazer mantimentos às famílias em situação de vulnerabilidade
Por isso, exigimos que sejam tomadas medidas efetivas para que se pare com os ataques às retomadas, que os acampamentos e grupos paramilitares sejam desmobilizados e os executores e mandantes dos criminosos ataques sejam punidos. Além disso, queremos que os povos Guarani-Kaiowá e Ava-Guarani tenham garantida a posse de duas terras, sem ameaças de reintegração e que sejam concluídas as demarcações, paralisadas há anos pelos sucessivos governos. Nesse sentido, nos colocamos contra o Marco Temporal e a atual tentativa dos três poderes de se realizar um acordo que visa legitimá-lo!
Dessa forma, conclamamos a todos os estudantes, professores, reitorias, faculdades, grupos de pesquisa e a comunidade acadêmica em geral, além de entidades democráticas, sindicatos, movimentos populares e apoiadores de todo o Brasil a denunciarem esses crimes e tomarem posição no apoio e solidariedade aos povos indígenas e a justa luta pela sua terra!
Parem os ataques às retomadas!
Punição para os mandantes dos ataques e seus bandos paramilitares!
Todo apoio à luta dos povos indígenas por sua terra!
Abaixo o Marco Temporal! Direitos fundamentais não se negociam!
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