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Assinatura da Carta da Transdisciplinaridade (Celebração da Carta)

Para: Pessoas

Pessoas amigas, esse é um convite para declararmos nossa afinidade com a Carta da Transdiciplinaridade. Neste momento de celebração dos 30 anos da Carta (1994 - 2024) animamos nossos espíritos e reafirmarmos a futuridade dos considerandos e artigos desse documento singular. Essa assinatura é simbólica e celebra o compromisso com a transição ecológica e humanista do Planeta.

CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE

Preâmbulo

Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas e não acadêmicas
conduz a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível uma visão
global do ser humano;

Considerando que somente uma inteligência que leve em consideração a dimensão
planetária dos conflitos atuais poderá enfrentar a complexidade do nosso mundo e o
desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual de nossa espécie;

Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante,
que só obedece à lógica assustadora da eficácia pela eficácia;

Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais
acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva à uma ascensão de um
novo obscurantismo cujas consequências, no plano individual e social, são
incalculáveis;
Considerando que o crescimento dos saberes, sem precedente na história, aumenta a
desigualdade entre os aqueles que os possuem e os que deles estão desprovidos,
gerando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações do nosso
planeta;
Considerando, ao mesmo tempo, que todos os desafios enunciados tem sua
contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário dos saberes pode
conduzir, a longo prazo, a uma mutação comparável à passagem dos hominídeos à
espécie humana;

Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de
Transdisciplinaridade (Convento da Arábia, Portugal, 2 a 7 de novembro de 1994)
adoram a presente Carta, que contém um conjunto de princípios fundamentais da
comunidade dos espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo
signatário dessa Carta faz consigo mesmo, livre de qualquer espécie de pressão jurídica
ou institucional.

Artigo 1
Toda e qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma definição e de dissolvê-lo
em estruturas formais, sejam quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.

Artigo 2
O reconhecimento da existência de diferentes Níveis de Realidade, regido por lógicas
diferentes, é inerente à atitude transdisciplinar. Toda tentativa de reduzir a Realidade
a um só nível, regido por uma lógica única, são se situa no campo da
transdisciplinaridade.

Artigo 3
A Transdisciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar; ela faz emergir
novos dados a partir da confrontação das disciplinas que os articulam entre si; ela nos
oferece uma nova visão da Natureza e da Realidade. A transdisciplinaridade não
procura o domínio de várias disciplinas, mas a abertura de todas as disciplinas ao que
as une e as ultrapassa.

Artigo 4
A pedra angular da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa
das acepções através e além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta,
mediante um novo olhar sobre a relatividade das noções de definição e de
objetividade’. O formalismo excessivo, a rigidez das definições e o exagero da
objetividade, incluindo-se a exclusão do sujeito, conduzem ao empobrecimento.

Artigo 5
A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o
campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação, não somente com
as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência
interior.

Artigo 6
Com relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é
multirreferencial e multidimensional. Embora levando em conta os conceitos de
tempo e de História, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte
transhistórico.

Artigo 7
A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia,
nem uma nova metafísica, nem uma ciência da ciência.

Artigo 8
A dignidade do ser humano também é de ordem cósmica e planetária. O aparecimento
do ser humano na Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento
da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano
tem direito a uma nacionalidade, mas a título de Habitante da Terra, ele é ao mesmo
tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional da dupla
cidadania pertencer a uma nação e à Terra – constitui um dos objetivos da pesquisa
transdisciplinar.

Artigo 9
A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta em relação aos mitos, religiões e
temas afins, que os respeitam em um espírito transdisciplinar.

Artigo 10
Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possa julgar as outras culturas.
A abordagem transdisciplinar é, ela própria, transcultural.

Artigo 11
Uma educação autêntica não pode privilegiar abstração no conhecimento. Ela deve
ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o
papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na transmissão do
conhecimento.

Artigo 12
A elaboração de uma economia transdisciplinar está baseada no postulado de que a
economia deve estar a serviço do ser humano e não o inverso.

Artigo 13
A ética transdisciplinar recusa toda e qualquer atitude que se negue ao diálogo e à
discussão, qualquer que seja a sua origem – de ordem ideológica, cientificista,
religiosa, econômica, política, filosófica. O saber compartilhado deve levar a uma
compreensão compartilhada, baseado no respeito absoluto às alteridades unidas pela
vida comum numa só e mesma Terra.

Artigo 14
Rigor, abertura e tolerância são as características fundamentais da atitude e da visão
transdisciplinares. O rigor na argumentação que leva em conta todos os dados é a
melhor barreira em relação aos possíveis desvios. A abertura comporta a aceitação do
desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do
direito às ideias e verdades contrárias às nossas.

Artigo final
A presente Carta da Transdisciplinaridade foi adotada pelos participantes do Primeiro
Congresso Mundial de Transdisciplinaridade e não reivindica nenhuma outra
autoridade além de sua obra e da sua atividade.
Segundo os procedimentos que serão definidos em acordo com as mentes
transdisciplinares de todos os países, esta Carta está aberta à assinatura de qualquer
ser humano interessado em promover nacional, internacional e transnacionalmente as
medidas progressivas para a aplicação destes artigos na vida cotidiana.

Convento da Arrábida, 6 de novembro de 1994.

Comitê de Redação
Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu.
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4 Pessoas

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Esta petição foi criada em 05 novembro 2024
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