NOTA DE REPÚDIO CONTRA O TEATRO DORIAN SAMPAIO
Para: Quem testemunhou a situação que a MOVA viveu.
CARTA DE REPÚDIO
No dia 01 de julho de 2024, procurei o whatsapp da Flávia, então responsável pelas pautas do Teatro Dorian Sampaio, às 10h da manhã. Dia previamente dito por ela, o primeiro para pedir pautas. Todos os anos, por realizar dois espetáculos, pego em média 5 dias de aluguel, mas ela me disse que já não havia mais 05 dias corridos, incluindo um final de semana. Alí começaria a minha difícil saga com o Teatro Dorian Sampaio. Ela então me explicou, que este ano, aconteceriam muitos eventos da prefeitura de Maracanaú e isto reduziu o número de datas disponíveis. Para além disso o Teatro também fica disponível para as cidades de Maranguape, Pacatuba e Fortaleza, reduzindo ainda mais as pautas para as academias de Maracanaú, sua própria cidade. Ao longo dos meses, após procurar muito uma solução e depois de alterarem várias vezes as datas, consegui os dias 16, 23, 24, 29 de Novembro e 01 de Dezembro. Datas espaçadas, que fariam com que meu orçamento dobrasse e as vezes triplicasse. Afinal, é fácil entender, que não há como cobrar o mesmo, para trabalhar 5 dias seguidos e 5 dias de forma espaçada. Me refiro aqui à fotografia, filmagem, maquiagem, penteado e tantos outros serviços essenciais para espetáculos de dança. Na época fui até o teatro e a gestão me tranquilizou dizendo que tentariam me ajudar permitindo que os objetos cenográficos poderiam ficar no teatro durante essas 3 semanas e também que tentariam manter o linóleo no palco, pois se nesses 4 dias (já que 2 dias seriam seguidos) eu tivesse que colocar fita, gastaria em média 150 reais para coloca-las por dia de uso. Entre outras coisas mais. O valor total de pauta havia ficado em média 7 mil reais e eu pedi que revisassem esse valor, pois eu não estava preparada para pagar essa quantia, já que normalmente a maioria das minhas datas ficavam no meio da semana que é mais barato que no final de semana. E fui atendida com o desconto de 2 mil reais, ficando assim com um valor de 5 mil. Não escondo essa parte do meu relato, pra mostrar que sou justa. No dia 16, tudo ocorreu relativamente bem. Porém, mais de 7 alunos apresentaram fortes dores de garganta e crises de alergia e algumas pessoas reclamaram que o ar-condicionado não estava funcionando bem. Enviei mensagens para pedir que vissem a limpeza e se o ar estava recebendo manutenção, disseram que sim. No dia 23 quando chegamos, levamos por conta própria aspiradores de pó e limpamos antes de qualquer aluno chegar todo o palco, para tentar resolver os episódios de alergia. Além de nos comunicamos com a equipe disponível, pedindo que ligassem logo cedo os ar-condicionado. Eles disseram que 2 estavam com problema, naquele mesmo momento. Naquele dia o palco estava mais uma vez sem linóleo, então compramos fitas novamente, pela segunda vez, dessa vez foi gasto 250 reais em fitas, para deixar tudo em perfeito estado, já que o linóleo estava bastante rasgado. Enquanto escrevo este relato, já estou ciente que o teatro comprou um novo linóleo. Naquele final de semana recebi inúmeras reclamações dos meus clientes e convidados sobre calor. Um calor que desconcentrava e não permitiam que curtissem os espetáculos. Em dezembro de 2023 fiz o anúncio dos dois espetáculos e desde então acontecem aulas, ensaios, reuniões. Uma preparação de meses para que estes dias aconteçam e entendam que isto foi ofuscado pelo calor. Na segunda iniciei uma comunicação com todos os números que tinha, pois não queria mais falar com pessoas que não fossem realmente responsáveis pelo teatro, meu intuito era falar com a dona Antônia, secretaria de cultura de Maracanaú. Me foi respondido de pra falar com ela, “era sorte”, não havia como agendar, precisaria ficar indo até o teatro e tentar a sorte para encontra-la. Então fui até lá por 2 vezes. Na segunda tentativa, fui atendida pela sua secretaria, Valéria, que me atendeu muito bem. Foi bem sincera ao dizer que o teatro não podia sofrer grandes manutenções 3 meses antes, nem 3 meses depois das eleições. Que já haviam comprado novos ar, mas que esses não podiam ser instalados. Eu perguntei a ela o que poderia ser feito por mim, já que fui prejudicada no meu evento e não queria que aquilo se repetisse, afinal teria uma nova chance com meus clientes. Ela disse que não poderia ser feito nada além de pedir que a própria equipe desse “uma olhada” no ar. Alí já vi que poucas eram as chances de algo melhor acontecer e já fui pensando em soluções. No dia do evento iria dividir meu elenco em dois grupos, um ficaria na recepção, inclusive contratei para que eles pudessem assistir o espetáculo, um técnico e assim foi feito. Coloquei um ventilador nas coxias para que os alunos tivessem um pouco mais de conforto e confiei que iriam fazer alguma manutenção no ar. Na quarta, 2 dias antes do meu evento, recebo uma enxurrada de mensagens, fotos e ligações. Quando vejo, todos os meus itens de cenografia, estavam espalhados pelo palco e precisaria ir naquele momento buscar. Mensagens de uma senhora, que não sei quem é, em um tom de bastante grosseria, dizendo que eu não podia deixar minhas coisas alí, que o teatro não permite que deixem as coisas alí, que o teatro não se responsabilizava pelas minhas coisas. Hora, eu tenho as chaves do depósito do teatro? Eu guardei minhas coisas a força? Eu que já estava tendo tanto prejuízo financeiro e emocional, naquele momento vivi mais um. Insegura, com medo de que meus objetos estivessem sendo danificados. Sendo acusada e até mal tratada, por algo que fui autorizada previamente a fazer. Falei com os números que tinha e todos só respondiam: “Quem foi que lhe permitiu guardar estas coisas? Quero nomes”. A gestão mudou várias vezes, eu não sei os nomes. Porém, tinha o número da Valéria, que mais uma vez, me atendeu super bem. E me tranquilizou dizendo que iria resolver e que eu não precisaria ir até lá. Afinal, se todos os 5 dias eu tivesse que pagar frete e funcionários para fazer esse transporte, quanto eu gastaria? Deixei isso claro para ela e ela compreendeu. Alí, já foi uma manhã de muito choro e nervosismo. Na sexta, dia 29, aconteceria o pior dia, o dia em que foi registrado o calor insuportável e postado nas redes sociais. Apesar de dividir o público, apesar do ventilador, apesar de não ter a plateia lotada em sua capacidade máxima, sobraram nesse dia mais de 50 ingressos, meus alunos viveram um terror! Crianças passando muito mal de calor, pressão baixa, um verdadeiro inferno. E eu, que passei meses sonhando com esse dia, só escutei “não vejo a hora de acabar, para ir embora desse calor”. Mais de 100 crianças e adolescentes se preparam pra viver aquele dia e ele foi arruinado, pelo completo desespero. Naquele mesmo dia procurei inúmeras pessoas e não recebi resposta. Minha amiga pessoal e também diretora Gaby Sousa, filmou os meus convidados se abanando e me disse o quanto aquilo era constrangedor e teve pena de mim. Eu enviei esse vídeo para algumas pessoas, para provar o que passei e alguém enviou para esse instagram que postou o vídeo. Para além do calor, os pais relataram que os banheiros não estavam com água e o fedor era gigante, o que chegou como sede para o instagram que postou o vídeo, mas o problema eram os banheiros. Após a grande repercussão do vídeo, obtive resposta das minhas mensagens, em momento nenhum houve um pedido de desculpas, só disseram que não podiam fazer nada. Na sexta perguntamos a equipe de plantão se no dia seguinte seria tirado o linóleo do palco, disseram que não, que seria um show de humor apresentado no proscênio. Então, após uma noite indo dormir de madrugada, chorando muito devido as reclamações que estava recebendo, afinal os meus clientes estavam corretos de reclamarem de ter investido em um festival e terem sofrido com tanto calor. Decidi acordar mais tarde, já que não precisaria colocar o linóleo. Cheguei ao meio-dia no teatro e o palco estava sem linóleo. Naquele momento tive uma crise de pânico. Para cobrar pela pauta, para reclamar dos meus objetos cênicos, todos alí conseguiam se comunicar comigo. Mas para me avisar de que eu precisaria chegar mais cedo e trazer fitas de linóleo, ninguém me comunicou nada. Estava eu, em um domingo meio-dia, aonde todos os depósitos de construção estão fechados, sem saber o que fazer. Sem linóleo, as modalidades que ensino não conseguem dançar. Iriam pisar nos buracos, escorregar, se machucar com as farpas. (Por Deus, minha amiga Gaby Sousa, me emprestou 3 fitas.) Eu já tinha tido um prejuízo de quase 700 reais em ingressos. Precisava me resguardar do calor, então tentei pedir emprestado ventiladores, ninguém nem respondia, até que ofereci um ingresso em troca de emprestar um ventilador. E assim consegui 14 ventiladores, que iriam me salvar naquele dia. Ali naquela tarde de domingo, eu chorava e me desesperada, já cansada e em estado de choque de tudo aquilo que vinha passando. Decidi gravar um vídeo, para ter provas daquele momento. Uma funcionária do teatro passou e foi informar a dona Antônia, que estava no teatro e mandou me chamar. Fui levada a uma sala fechada, com ela e mais dois funcionários dela. Não tinha uma testemunha a meu favor, apenas eu e Deus. Alí, ela começou a falar comigo em um tom de autoridade e grosseria, na qual repeti diversas vezes pra ela que ela estava gritando e sendo grossa e ela não aceitava. Ela me disse que o teatro que temos é esse e que eu sempre reclamo muito. Repetiu as palavras que eu já tinha ouvido sobre como era difícil ser feita uma manutenção naquele teatro, por ser público. Estava bastante alterada devido ao vídeo postado nas redes sociais, ela repetia muitas vezes que ela não tinha obrigação de oferecer água. Sendo que eu não postei aquele vídeo e tentei várias vezes dizer pra ela. E mesmo que tivesse postado, ela não tinha o direito de constranger por usar minha liberdade de expressão na internet. Eu repeti as coisas que aconteceram comigo, que citei acima. E ela me aconselhou a procurar outro lugar para fazer meus espetáculos, que o teatro parecia não atender minhas expectativas. Eu perguntei a ela, a quanto tempo trabalhava naquele teatro, ela respondeu 3 anos. E eu lhe respondi, que sou filha daquele teatro, danço naquele palco a mais de 15 anos. Sou Maracanauense com muito orgulho e é na minha cidade aonde quero fazer minha arte. Minha cidade tem que ter orgulho de mim, orgulho do meu sucesso. A secretaria de cultura tem que incentivar e até patrocinar os artistas de Maracanaú. Ao ouvir os gritos dela, meu esposo, abriu a porta, e tentou mais uma vez explicar para ela tudo o que passamos durante estas 3 semanas. Mas ela só falava sobre a sede citada no vídeo, estava focada no vídeo na rede social e nem conseguia escutar aquele “cliente” que alugou um espaço para viver um sonho e viveu um verdadeiro terror. Chorando eu disse a ela, que ela precisava me pedir desculpas e me compensar, sugeri a ela um desconto, pois naquele dia ainda faltava 1.500,00 de pauta a serem pagos, ela com muita grosseria, disse que eu não pagasse. E eu disse a ela, que não iria me fazer de forte e iria sim aceitar o desconto, por que tive um prejuízo muito maior naqueles dias. Naquele momento, tinha outra crise de pânico e fiz questão de dizer à ela, que alí deveria ser um lugar de acolhimento e ela perguntou se eu não me sentia acolhida. Como, com tanta grosseria? Sai daquela sala e uma das funcionárias dela, me acompanhou e falou que nem estava sabendo de nada, que ali a obrigação dela era só deixar tudo limpo. Ou seja, o que essa mulher estava fazendo naquela sala, além de ser um símbolo de 3 contra 1? Venho aqui manifestar minha insatisfação, trauma, tristeza e desconforto com o modo que foi tratada pelo Teatro Dorian Sampaio. Espero que ninguém, pagando ou com pauta grátis precise passar pelo o que passei. O teatro tem obrigação sim, de oferecer um espaço confortável e seguro. E de pelo menos acolher o artista maracanauense em uma situação como a que vivi. É lamentável o despreparo dos funcionários da secretaria de cultura, de como lidar com outros seres humanos, em uma situação de fragilidade e tristeza. E deixo claro que irei continuar fazendo meus espetáculos e reclamando todas as vezes que as cadeiras estiverem quebradas, palco fofo e com buracos, espaço sujo e empoeirado, falta de climatização adequada e por ser desrespeitada e mal tratada. Agradeço ao senhor Assis, senhor Darlan e Valéria, por em meio a tanto caos, tentarem me dar algum tipo de suporte. A Deus por não ter me deixado cair e tantos amigos que me ouviram e auxiliaram.
Lia Raquel Santos Teixeira
Diretora da MOVA Studio de Dança