Por uma Regulamentação do Streaming à Altura do Brasil
Para: Entidades do audiovisual, cineastas, produtores e produtoras, técnicos e técnicas, artistas, intelectuais, ONGs, empresários, economistas, pesquisadores (as) e cidadãs e cidadãos de todas as regiões do Brasil)
Manifesto por uma Regulamentação do Streaming à Altura do Brasil
O cinema brasileiro tem trazido muitas alegrias e orgulho ao país — como na conquista do primeiro Oscar de Filme Internacional — e vive um momento de grande reconhecimento. Mas esse prestígio, por si só, não garante um futuro sustentável.
As conquistas recentes são fruto de décadas de políticas públicas, fundos estratégicos e lutas coletivas. No entanto, o marco regulatório que garantiu esse avanço se tornou insuficiente diante das novas dinâmicas do mercado audiovisual, especialmente com o crescimento das plataformas de streaming.
A regulamentação do vídeo sob demanda (VOD) é hoje a medida mais urgente e estratégica para garantir o futuro do audiovisual brasileiro.
Isso só será possível se o Governo Federal e o Congresso Nacional tratarem o tema com a centralidade que exige um verdadeiro projeto de país — afinal, o audiovisual é um setor estratégico para o desenvolvimento nacional.
O audiovisual brasileiro representa aproximadamente 0,5% do PIB, movimenta mais de R$ 25 bilhões por ano e gera cerca de 330 mil empregos diretos e indiretos, segundo a Ancine e o IBGE. O Brasil é hoje o segundo maior mercado de streaming do mundo. Isso nos dá legitimidade para propor uma regulação própria, robusta e soberana — que estimule o crescimento com responsabilidade e visão estratégica.
Entidades da sociedade civil, movimentos do cinema independente, artistas e especialistas vêm defendendo uma proposta sólida:
a alíquota mínima de 12%, aprovada na Moção nº 1/2024 do Conselho Superior de Cinema, acompanhada do modelo 70/30:
• 70% dos recursos vão para o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), via Condecine, fortalecendo políticas públicas transparentes e descentralizadas, com alto potencial de retorno econômico e fiscal;
• 30% podem ser deduzidos se a plataforma investir diretamente em obras brasileiras independentes, por meio de licenciamento ou pré-licenciamento.
Essa proposta garante um equilíbrio virtuoso entre contribuição pública e obrigação privada, fortalecendo o FSA e ampliando a presença da produção nacional nas plataformas.
Ao combinar fomento público estruturante com investimento privado direto, o modelo estimula todo o ecossistema — das produtoras consolidadas às novas iniciativas, dos polos regionais aos grandes centros — promovendo inovação, diversidade e sustentabilidade em escala nacional.
Além disso, defendemos que a futura lei estabeleça uma cota mínima de 20% de visibilidade para obras brasileiras nos catálogos das plataformas — ampliando a atual previsão de 10% e garantindo que a presença nacional não seja apenas simbólica, mas efetiva.
Modelos semelhantes já foram adotados em outras economias, sem impactos diretos sobre os preços ao consumidor, e contribuíram para diversificar os mercados e ampliar o acesso à produção local.
Propostas que permitem renúncia fiscal de até 60% reduzem a contribuição efetiva ao FSA para cerca de 2,4%, esvaziando o protagonismo do fundo público e transferindo às plataformas privadas o poder de decisão sobre os investimentos.
A Condecine é um tributo público. Já os investimentos diretos são obrigações privadas. Na Europa, o investimento privado é complementar, e não substitutivo. Substituí-lo por meio de descontos excessivos compromete a arquitetura regulatória e enfraquece os instrumentos de fomento amplos e transparentes.
Esse esvaziamento tem sido justificado por críticas à Ancine, mas os avanços recentes da agência — como o programa Malha Fina, que destravou recursos e economizou R$ 803 milhões — mostram que é possível modernizar sem desmontar.
O fortalecimento institucional da Ancine deve caminhar junto com a consolidação de uma regulação robusta.
O modelo 12% com 70/30 tem base técnica, apoio social e foco em resultados:
- Segurança jurídica e previsibilidade regulatória;
- Estímulo ao empreendedorismo criativo em todo o país;
- Geração de empregos, tributos e renda nas economias locais;
- Valorização da produção independente e fortalecimento da concorrência.
Trata-se de uma política pública de interesse nacional.
O audiovisual é um ativo estratégico — econômico, cultural e simbólico. Investir em suas estruturas é uma medida republicana de alto impacto para a sociedade brasileira.
Por isso, conclamamos o Congresso Nacional a aprovar uma Lei de Streaming justa, moderna e à altura da potência brasileira.
Uma lei que:
- Estruture o setor com responsabilidade e visão de futuro;
- Amplie o acesso da população ao conteúdo nacional;
- Estimule a liberdade de criação e a diversidade de oferta;
- Gere emprego, renda e inovação em todas as regiões do Brasil.
Toda grande nação investe nas histórias que decide contar.
O Brasil merece um marco regulatório que fortaleça toda a cadeia do seu audiovisual, dinamize sua economia e projete sua identidade no mundo.
APROVA JÁ!
Assinam este manifesto:
ABC – Associação Brasileira de Cinematografia
ABRA – Associação Brasileira de Autores Roteiristas
ABRACI – Associação Brasileira de Cineastas
Alain Fresnot
Ana Carolina
Alfredo Manevy
Aly Muritiba
Ana de Hollanda
Ana Paula Nogueira
André Novais Oliveira
Antonio Fagundes
Antonio Grassi
APACI – Associação Paulista de Cineastas
Associação de Montadores de Cinema – AMC
Associação dos Streamings Independentes
Associação Filmes de Quintal
Associação Revivarte
Beto Brant
Bia Marques
Cacá Machado
Caio Blat
Camila Umaki
Cláudia Abreu
Coletivo de Mulheres e Dissidentes de Gênero do Departamento de Fotografia do Audiovisual Brasileiro – DAFB
CONNE – Conexão Audiovisual Centro Oeste, Norte e Nordeste
CONNE – Conexão Audiovisual Centro Oeste, Norte e Nordeste.
Cristina Pereira
DAFB – Coletivo de Mulheres e Dissidentes de Gênero do Departamento de Fotografia
Daniel Filho
Daniela Fernandes Alves
Daniela Broitman
David Schurmann
Denise Bandeira
Diogo Dahl
Débora Duboc
edt. – Associação de Profissionais de Edição Audiovisual
Eduardo Escorel
Eliane Caffé
Eryk Rocha
Eugênio Puppo
Evaldo Mocarzel
Fernanda Tanaka
Fernanda Thurann
Flávia Guerra
Flávio Marinho
Frei Betto
Guel Arraes
Helena Solberg
Helena Tassara
Hermano Penna
Hélio Goldsztejn
Ideli Salvati
Igor Bastos
Irene Ravache
Ivo Branco
Jacques Cheuiche
Joel Zito Araújo
João Batista de Andrade
João Castelo Branco
José Joffily
José Roberto Eliezer
Julia Zakia Orlandi
Juliana Rojas
Juliana von Schmalz
Jussara Locatelli
Júlia Lemmertz
Karim Aïnouz
Kécia Ferreira
Lauro Escorel
Laís Bodanzky
Leandro Karnal
Letícia Spiller
Lilian Solá Santiago
Lina Chamie
Louise Cardoso – Atriz
Lucia Murat
Luciana Sérvulo da Cunha
Luis Carlos Lucena
Luiz Carlos Lacerda
Luís Alberto de Abreu
Lúcia Murat
Malu De Martino
Malu Mader
Marcela Lordy
Marcello Picchi
Marcelo Daros
Marcia Paraiso
Marco Nanini
Marieta Severo
Marisa Orth
Mariana Pamplona
Marcos Palmeira
Maria Adelaide Amaral
Matheus Nachtergaele
Mayra Faour Auad
Minom Pinho
Murilo Salles
Mustapha Barat
Nonato Estrela
Otavio Augusto
Pedro von Krüger
Rachel Monteiro
Renata Sette
Roberto Gervitz
Rodrigo Monte
Rodrigo Siqueira
Rossana Foglia
Rubens Rewald
Ruy Guerra
Silvio Tendler
SINAV – Sindicato da Indústria do Audiovisual da Bahia
SINAV – Sindicato da Indústria do Audiovisual do Estado da Bahia
SINDAV – Sindicato da Indústria Audiovisual de Minas Gerais
STIC – Sindicato Interestadual dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica
Stela Freitas
Sérgio Bloch
Sérgio Roizenblit
Tatiana Toffoli
Tereza Trautman
Tetê Moraes
Tizuka Yamazaki
Tuinho Schwartz
Ugo Giorgetti
Vera Hamburger
Vera Zaverucha
Vinícius de Oliveira
Viviane Ferreira
Wagner Tiso
Walter Carvalho
Walter Lima Jr.
Yuri Kopcak
Zelito Viana
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