Dragagem do Guaíba -Política Eficaz de Desassoreamento.
Para: Governo do Estado do RS
Nós, Navegadores (Esporte e recreio, transporte comercial e pesca) do Guaíba , do Jacuí e da Lagoa dos Patos, somos protagonistas na vivência diária das águas dessa região e estivemos na linha de frente dos resgates durante as enchentes de 2025, contribuindo com nossos barcos e habilidades náuticas para salvar famílias e animais em situação de risco. Essa experiência não apenas reforça nosso compromisso com as comunidades ribeirinhas, mas também nos proporciona um olhar técnico e prático sobre a condição real dos cursos d’água – conhecimento que deve ser levado em consideração pelos órgãos gestores. Muitos de nós somos inclusive engenheiros com conhecimento técnico além do conhecimento náutico.
Após as cheias de setembro de 2024 e Maio de 2024 e mais recentemente junho de 2025, temos a percepção clara de que o leito do rio está repleto de depositários sedimentares em zonas de menor calado, o que reduz significativamente a velocidade de escoamento da água e amplia as áreas de inundação. Embora o IPH e o Comitê Científico do Plano Rio Grande tenham divulgado notas assegurando que “não foi detectada alteração significativa na resposta do Guaíba às chuvas” e que as variações batimétricas decorrem de processos naturais como erosão e deposição típicos de eventos extremos [1], a realidade vivida por quem navega cotidianamente revela pontos críticos que merecem ação efetiva.
Esses órgãos afirmam que os perfis batimétricos indicam menos assoreamento e mais erosão em diversos pontos, e que a cheia de 2025 teve vazão de 12.941 m³/s – ainda que menos que o recorde de 35.736 m³/s de 2024, continua sendo entre 6 a 12 vezes acima do normal (1.000 a 2.000 m³/s) [2]. No entanto, essa análise macro não reflete situações locais pontuais onde sedimentos se acumulam em curvas, margens urbanas e áreas de menor corrente, onde a pressão da água fica represada em áreas alagáveis. Pontos como o canal do itapuã são de extrema importância neste sistema.
Além disso, as dragagens realizadas até hoje, que retiram sedimento do canal principal apenas para depositá-lo em áreas menos profundas dentro do próprio Guaíba, são insuficientes, pois a correnteza rapidamente recoloca esse material nos canais de navegação. Enquanto isso, afluentes como o Rio das Antas, Jacuí e Sinos continuam recebendo grande volume de sedimentos, agravado por recentes deslizamentos nas encostas, que reforçam o aporte contínuo de material sólido ao sistema fluvial, dificultando a manutenção da profundidade.
Reconhecemos que a batimetria iniciada em julho de 2025 pelo governo – com apoio da Sema e consórcios especializados – é um avanço importante, mas alertamos que estudos batimétricos isolados, sem um olhar ampliado para dinâmica hidrossedimentológica, modelagem de escoamento e monitoramento contínuo, não garantem soluções eficazes [3]. O IPH enfatiza a necessidade de estudos complementares e monitoramento regular, recomendando que sejam feitas análises hidrossedimentológicas periódicas e modelagens que considerem cenários de chuvas extremas e aporte sedimentar [2]. Nós que conhecemos bem os canais de navegação e as zonas de menor calado entendemos bem como essa dinâmica funciona e o quanto tem mudado nos últimos tempos. Por isso também indicamos da necessidade de implantação de sistema de monitoramento que efetivamente meça os dados no canal de navegação através de sensoriamento remoto de diversos pontos críticos entre o Guaíba e o Canal da Barra de Rio Grande. Desta forma poderá ser melhor evidenciado nos modelos aquilo que verificamos na prática.
Defendemos, pois, que a resposta ao assoreamento só será eficaz com uma política estruturada de dragagem profunda e permanente, retirando sedimentos de forma definitiva e depositando-os em locais adequados e externos ao sistema de escoamento, aliado a uma gestão integrada da bacia hidrográfica, com intervenções nas áreas de encostas, controle de erosão, reflorestamentos de margens e contenção em afluentes. Devem ser garantidos recursos para que o sistema seja mais eficazmente monitorado e dessa forma embasar as Políticas de Gestão de Desassoreamento.
Reforçamos que estamos falando de um sistema hidroviário fundamental ao Rio Grande do Sul, que liga o Porto de Rio Grande ao Porto de Porto Alegre, passa pelo Guaíba, Lagoa dos Patos e Jacuí, sustentando cargas diárias de grãos, insumos e produtos industrializados. O assoreamento reduz o calado, encarece tarifas, aumenta riscos de acidentes e compromete a competitividade da economia gaúcha. Em paralelo, a população ribeirinha sofre inundações prolongadas, com danos a imóveis, infraestrutura e à vida.
A ciência oficial e os órgãos ambientais não podem ignorar a percepção acumulada de quem está nas águas inúmeras vezes ao ano. Nossa voz, assim como nossos atos de ajuda durante as tragédias recentes, são parte legítima deste debate — devemos agir com urgência. É possível conciliar tamanho da operação, controle ambiental, interesse público e prevenção a novos desastres. A crise climática exige resposta firme, técnica e participativa.
Referências
1. [1] https://estado.rs.gov.br/especialistas-emitem-notas-firmando-consenso-de-que-assoreamento-nao-foi-decisivo-para-recentes-inundacoes-no-estado
2. [2] https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/cidades/cheias-nos-principais-rios-do-rs-n%C3%A3o-foram-agravadas-por-assoreamento-aponta-an%C3%A1lise-do-iph-1.1625024
3. [3] https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2025/07/comecam-as-medicoes-para-saber-se-o-guaiba-esta-mais-raso-ou-mais-fundo-apos-enchentes-entenda-cmcw4tug200l8014r8xry5r8h.html
4. [4] https://gauchazh.clicrbs.com.br/ambiente/noticia/2025/07/monitoramento-de-rios-e-limitado-pela-falta-de-equipamento-do-instituto-de-pesquisas-hidraulicas-da-ufrgs-cmcp7pa4z005o016r604lezkk.html