NÃO À PRECARIZAÇÃO DA HABILITAÇÃO DE LETRAS/PORTUGUÊS NA USP!
Para: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas; Diretoria da FFLCH; Reitoria da USP
Para o Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a Diretoria da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e a Reitoria da Universidade de São Paulo.
Está sendo levantada pelos próprios professores do DLCV a hipótese do corte da carga horária de disciplinas essenciais da grade curricular do curso de Letras / Português, sob uma teoria da chamada
"Filosofia da Flexibilização Curricular". A origem desta teoria é desconhecida, mas, na prática,
ela exclui conteúdos valiosos à formação básica dos alunos deste curso, sob o pretexto de transformar as disciplinas básicas em matérias optativas e trocar seu espaço por conteúdos onde os professores ofereçam seus trabalhos de pesquisa específicos. Isso já ocorre devidamente nos cursos de pós-graduação. A reforma está sendo proposta sem considerar a opinião dos alunos, os maiores interessados e diretamente envolvidos. Assim perguntamos publicamente: qual a lógica e as consequências práticas disso?
Diante da importância dos estudos de literatura para o conhecimento de questões inerentes à condição humana, da sociedade brasileira, de seus grupos sociais, étnicos e de gênero, assim como mostra Antonio Candido (que dá nome ao nosso prédio de Letras) para a consolidação, no país, de um projeto de educação da literatura brasileira e original, conclamamos os professores do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, em especial os de Literatura Brasileira, a não reduzirem a quantidade de disciplinas obrigatórias da área para a habilitação em Português e a não tornarem optativas a maioria das disciplinas sobre o conjunto da produção literária do país. Literatura Brasileira não pode ser reduzida a duas ou três obrigatórias, como está sendo proposto. Isso significaria um retrocesso e uma precarização da formação dos alunos de Letras.
A citada "flexibilização do curriculum básico" do curso de Letras privilegia alunos provenientes de boas condições econômicas e de acesso cultural irrestrito, com bagagem adquirida anteriormente e assim suficiente para construírem mais fortemente seu senso crítico e consequentemente suas próprias “trilhas” de conhecimento, com segurança. Aqueles que não têm uma base e referenciais sólidos desde a educação básica são jogados ao acaso e à autoprecarização nesse novo formato desenhado pelos docentes. Infelizmente, um dos argumentos utilizados pelos próprios professores para justificarem seu pedido unilateral de reforma é o de que os alunos, provenientes justamente de uma escola pública precarizada, não têm condições de acompanhar conteúdos das matérias da grade tradicional. Como assim? Não é justamente este o seu papel como mestre e o desta instituição, o de mitigar isso? No entanto, ao contrário disso, a solução, para os chefes e coordenadores destas áreas, é reduzir ao mínimo a formação básica e deixar esses alunos, que dizem estar despreparados, à deriva para escolherem entre diversas outras disciplinas dadas por especialistas, sem terem formado antes este parâmetro intelectual sólido e comparativo dentro desta universidade. Isso é contraditório.
Esta reforma proposta pelos professores do DLCV diz ainda ter como pretexto flexibilizar a formação dos alunos, mas como vimos, esta condições são na verdade uma grande armadilha e falácia, porém a causa real disto tudo é ainda a falta de contratação de novos professores e a necessidade dos atuais poderem quererem tirar novas licenças e afastamentos, além de fazer novas especializações. Porém, nada disso se resolve com a eliminação e fragmentação da nossa formação básica! Se alguns acham que o currículo está “engessado”, a questão é discutir o currículo sem reduzir a carga horária e consequentemente a importância de uma área de estudos tão fundamental na formação de intelectuais, professores e cidadãos brasileiros. O que vemos na prática é que não há engessamento das matérias, pois os professores já constroem os seus programas fazendo um diálogo entre um currículo básico, suas capacidades, seus interesses pessoais e acadêmicos. Por que ao invés do corte de conteúdo servido aos alunos quando eles mais precisam é a prioridade e não a necessidade de se exigir entre os próprios professores a contratação de mais colegas para dar conta destes bem-vindos novos cidadãos e profissionais em formação, que batalharam tanto justamente para terem acesso a estes exatos conteúdos que estão sendo sorrateiramente retirados de seu contato inicial?
O que reivindicamos é justamente uma consolidação e oferta maior de disciplinas básicas e fundamentadoras de Literatura Brasileira, nossa base cultural e identitária como país, obviamente antes da oferta de optativas que devem ser complementares à formação de qualquer aluno de graduação, além da devida contratação de professores para suprir isto, que é o dever e missão de existir desta instituição. Isso é o mínimo que precisamos, não menos.
Por último, também foi argumentado pelos professores como motivo para este desejo interno do grupo, a ausência de salas de aula, mas está sendo feita justamente uma gigantesca reforma no prédio da Letras neste momento para abrigar mais salas para abrigar devidamente a nós, alunos. Assim, cai por terra mais um argumento que não se sustenta diante dos fatos.
Reiteramos que nossa preocupação com essa decisão arbitrária é em relação à formação básica do estudante de Letras, uma vez que esta decisão unilateral tira o padrão de conteúdo atual que todos os alunos ingressantes no curso, fazendo com que sua formação seja reduzida apenas em conteúdos básicos da língua portuguesa, deixando assim esse conhecimento literário inicial do aluno mais raso, sem parâmetros críticos sólidos para escolhas acadêmicas e pessoais futuras.
Portanto, nosso motivo para esse abaixo-assinado é que não seja realizada a remoção de obrigatoriedade dessas disciplinas e que os graduandos tenham sua posição de escolha respeitada dentro da reestruturação de qualquer grade curricular da habilitação de Português do curso de graduação de Letras da FFLCH USP, incluindo-os também neste legítimo e urgente debate.