CARTA DO PANTANAL À COP 30
Para: COP30
CARTA DO PANTANAL À COP 30
Manifesto pela Vida, pela Água, Justiça Climática e pela Regeneração da Terra
Preâmbulo: Vozes do Pantanal em tempos de urgência
O Pantanal, coração úmido da América do Sul, fala, nossas águas gritam por esperança.
Esta Carta do Pantanal à COP 30 nasce do encontro de mais de 500 vozes diversas, entre
comunidades tradicionais, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pesquisadores,
gestores públicos, educadores, empresas privadas e movimentos sociais, que se unem
para defender a vida, a água e a dignidade de quem habita esse território.
Inspirados pela Agenda 2030 e pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável,
afirmamos que a crise climática é também uma crise ética, social e ecológica. No
Pantanal, a irregularidade das cheias, as queimadas cada vez mais severas, o
desmatamento e o avanço desordenado da agropecuária revelam a ruptura de um
equilíbrio milenar entre ser humano e natureza. A degradação dos ecossistemas vem
acompanhada da fragilização das políticas públicas, da perda de saberes tradicionais
e da desigualdade no acesso à terra e à água.
Mas desta vez, queremos que a nossa voz ecoe também como um chamado à
regeneração da terra e da economia. O futuro do Pantanal é de todo o Mato Grosso, mas
depende da coragem de impulsionar novos negócios e a nova economia. Que nascem
dos resíduos da natureza, transformando o que antes era descarte em fonte de renda,
dignidade e inovação. A regulamentação da Lei de Negócios de Impacto será o
instrumento que dará voz, poder e incentivo para que essas indústrias nascentes
floresçam. É o caminho para que políticas como a Economia de Impacto, a Economia
Circular, a Economia Verde, a Economia Criativa e a Logística Reversa, já estruturadas
em planos nacionais, ganhem corpo e vida no território.
Apesar da ausência de suporte legislativo e incentivos, o Pantanal vive: A força de suas
águas e de suas gentes permanece viva na solidariedade entre comunidades, na
sabedoria herdada das populações tradicionais, na biodiversidade exuberante e no
conhecimento científico comprometido com o bem comum. É nesse encontro entre
tradição e ciência que se abrem caminhos de esperança.
A implementação real dessas leis só será possível quando gerar condições para
impulsionar pequenas indústrias regenerativas, que resolvem problemas reais e reduzem
desigualdades, e nós já vimos acontecer! Durante os dias 08 e 09 de novembro de 2025,
conduzimos a várias mãos o 1º Hacka do Clima da COP Pantanal, pessoas que nunca
haviam empreendido criaram soluções de impacto em apenas dois dias; desde sensores
ecológicos de mercúrio até paletes de fibra de bananeira, tecidos regenerados, barreiras
ecológicas e jogos educativos. Sete grupos, cerca de quarenta pessoas, provaram que a
juventude pantaneira pode e quer construir o futuro sem sair da sua terra.
Imagine, então, se esse movimento for contínuo. Se programas como o Hacka do Clima
tornarem-se políticas de Estado. Se cada aldeia, escola e comunidade tiver acesso a
incubadoras, microcrédito e apoio técnico para transformar resíduos em oportunidades.
Assim nascerá um Mato Grosso com um PIB múltiplo, não sustentado apenas pelo
agronegócio, mas pela diversidade de negócios que brotam da terra, e da terra brotam
vida, e da vida novos negócios capazes de sustentar, ampliar a renda, reduzir as
desigualdades, e assim regenerar e sustentar o futuro.
Reconhecemos as fragilidades que nos desafiam: a ausência de políticas integradas e
contínuas de gestão territorial; o uso insustentável do solo e das margens; a recorrência
de incêndios e queimadas que consomem fauna, flora e modos de vida; a pressão de
grandes empreendimentos; a desvalorização da juventude e das mulheres pantaneiras;
e a carência de educação ambiental, do letramento digital, do acesso a infraestruturas
básicas para impulsionar a economia, tais como energia, água potável, esgoto, internet,
educação, dentre tantas outras, que proporcionam formar cidadãos conscientes e
críticos.
Reconhecemos as oportunidades que emergem da ação coletiva: fortalecer a
bioeconomia pantaneira, baseada em práticas agroecológicas e extrativistas
sustentáveis; ampliar a restauração de nascentes e matas ciliares; recuperar áreas
degradadas; valorizar o manejo tradicional do fogo e integrá-lo ao planejamento
ambiental; incentivar o turismo de base comunitária; e promover a pesquisa
participativa que una saberes acadêmicos e populares. São caminhos que dialogam
com todos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS 1 a 17), reforçando a
urgência de adaptar o território às metas globais e às necessidades locais
Assumimos compromissos concretos! Compromissos que gritam por apoio para serem
concretizados.
Comprometemo-nos a garantir governança das águas com participação social efetiva;
a defender os direitos territoriais das comunidades tradicionais; integrar ciência,
educação e gestão ambiental como pilares de políticas públicas; e promover uma
transição ecológica justa, em que o desenvolvimento signifique regeneração e não
destruição.
À COP30 e aos governos nacionais e locais, pedimos a implementação de planos de
mitigação e adaptação específicos para o Pantanal, o fortalecimento das instituições
ambientais com autonomia e transparência, e políticas permanentes de manejo do fogo
baseadas no diálogo entre ciência e saber tradicional
À COP30 e aos governos nacionais e locais, dirigimos nossas demandas: que sejam
implementados planos de mitigação e adaptação específicos para o Pantanal; que se
crie um fundo internacional voltado à restauração ecológica e a regeneração do
território e da esperança das pessoas em permanecer viva nossas culturas e
ancestralidades. Através de recursos que que apoiem organizações que promovem
educação coletiva, gerenciam ecossistemas de governança e impulsionam geração de
renda e inovação. Proporcionando que se reconheçam os territórios coletivos e os direitos
dos povos que os habitam; que se fortaleçam as instituições ambientais com autonomia
técnica e transparência; que se invista em educação ambiental, ciência e cultura; e que
se adotem políticas permanentes de prevenção e manejo do fogo, baseadas no diálogo
entre conhecimento científico e saber tradicional.
Conclamamos a sociedade brasileira e internacional a agir. O Pantanal é um espelho do
planeta: o que se perde aqui repercute em todo o mundo. Preservar o Pantanal é garantir
água, clima e alimento para gerações futuras. Que a COP 30 reconheça o Pantanal como
território estratégico de resiliência climática e compromisso ético da humanidade.
O Mato Grosso reúne grandes 3 Biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal. Sendo o Pantanal
o mais importante para o planeta! O Pantanal não é apenas um bioma, é uma escola
viva de convivência, um patrimônio cultural e espiritual, um símbolo de esperança em
tempos de crise. Enquanto houver Pantanal, haverá futuro.
O Pantanal resiste, enquanto os olhos permanecem fechados!
A fim de elucidar de forma clara e objetiva o diagnóstico (1), oportunidades (2),
compromissos (3), demandas (4) e o chamada para ação(5), seguem abaixo:
1.
Diagnóstico: Forças e Fragilidades de um bioma vivo
Suas forças estão no vigor da biodiversidade, na sabedoria dos povos que aprenderam a
viver com o pulso das águas, na solidariedade comunitária e na beleza de uma
paisagem que inspira o mundo. Há força também na ciência que se aproxima da
experiência local, na cultura pantaneira que celebra a terra, o rio, o fogo e o tempo.
Mas as fragilidades são profundas e exigem respostas estruturais:
1. A ausência de políticas públicas integradas e de longo prazo mina a capacidade
de gestão do território;
2. O desmatamento e o uso insustentável do solo comprometem nascentes e
margens;
3. A intensificação das queimadas e incêndios ameaça ecossistemas e vidas
humanas;
4. A pressão de grandes empreendimentos e monoculturas transforma paisagens
em zonas de risco ambiental;
5. A desvalorização das comunidades tradicionais e da juventude rural fragiliza o
tecido social e o futuro da conservação;
6. A educação ambiental ainda é incipiente, e a desinformação agrava a
desconexão entre sociedade e natureza.
Reconhecer essas fragilidades é o primeiro passo para transformá-las. O Pantanal é
resiliente, mas não infinito.
2. Horizontes: Oportunidades para um novo pacto pelo Pantanal
Das contribuições coletadas emergem caminhos de esperança e transformação. O
Pantanal pode e deve ser referência global em sustentabilidade, bioeconomia e justiça
climática. As oportunidades identificadas apontam para:
1. Fortalecimento da bioeconomia de base local, com cadeias produtivas que
respeitem o ciclo das águas e promovam renda sem destruir;
2. Ampliação das políticas de restauração ecológica e manejo sustentável do fogo,
valorizando o conhecimento tradicional das comunidades;
3. Educação ambiental crítica e emancipatória, que forme cidadãos conscientes e
agentes de mudança;
4. Ciência cidadã e integração entre universidades, escolas e comunidades, para
monitorar e compreender as transformações ambientais;
5. Turismo sustentável e solidário, que gere economia e reforçe o pertencimento
cultural;
6. Participação social efetiva nos Comitês de Bacia Hidrográfica, garantindo a
gestão democrática das águas;
7. Inserção do Pantanal nas agendas globais de clima e biodiversidade, como
símbolo de cooperação internacional pela vida.
Cada uma dessas oportunidades dialoga com os Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável como citados acima, contemplando a necessidade de olhar urgência para o
território, que neste momento grita por inúmeras necessidades para se adequar e
contribuir para o desenvolvimento das ODS.
3. Compromissos: Caminhos de união entre ciência, saberes e ação
Comprometemo-nos, coletivamente, a:
1.
Valorizar e proteger os povos tradicionais, reconhecendo seus direitos territoriais e
seus modos de vida como expressões de sustentabilidade;
2. Promover políticas públicas integradas de conservação e desenvolvimento, com
base em dados científicos e diálogo social;
3. Apoiar a transição ecológica e justa, substituindo modelos predatórios por
economias regenerativas;
4. Fortalecer o protagonismo das mulheres pantaneiras, juventudes, educadores
ambientais e Comitês de Bacia Hidrográfica como lideranças da transformação;
5. Integrar ciência, educação e gestão ambiental em um projeto de futuro que una
conhecimento e ética;
6. Reforçar o papel dos Comitês de Bacia Hidrográfica como espaços legítimos de
participação e planejamento territorial.
Esses compromissos representam um pacto entre gerações: o Pantanal que herdamos
deve ser o Pantanal que legaremos, porém mais vivo, mais justo, mais rentável, mais
sustentável e perene, permitindo que as próximas gerações vejam ele vivo, e não apenas
em livros de histórias.
4. Demandas: Chamado aos governos e à comunidade internacional
À luz da urgência climática e da Agenda 2030, demandamos:
1.
A implementação de políticas de mitigação e adaptação climática específicas
para o bioma Pantanal, com metas e indicadores públicos;
2. A criação de um Fundo Internacional de Restauração e Governança das Águas do
Pantanal, com participação da sociedade civil e das comunidades locais;
3. A proteção e regularização fundiária dos territórios tradicionais e coletivos;
4. A inclusão do Pantanal nas decisões estratégicas da COP 30, com representação
dos povos locais;
5. O fortalecimento das instituições ambientais, com recursos, autonomia técnica e
mecanismos de transparência;
6. O fortalecimento e estabelecimento com organizações Globais que visam
impulsionar o Impacto Positivo Real, compromissados com um mundo justo e
sustentável;
7. A promoção da educação ambiental e da cultura pantaneira como pilares da
sustentabilidade;
8. A adoção de planos permanentes de prevenção e manejo do fogo, baseados na
ciência e nos saberes tradicionais;
9. Restauração das nascentes do Rio Paraguai, por este ser o eixo principal do
Pantanal;
10. Implantar a política de corredores bioculturais no Pantanal, como forma de
manter viva a biodiversidade e diversidade cultural dos povos pantaneiros.
11.
Promover o reconhecimento dos direitos da natureza e dos rios em toda a bacia
do Rio Paraguai.
5. Chamado à Ação: O Pantanal é agora
Preservar o Pantanal é preservar a água que nos sustenta, o ar que respiramos e a
diversidade que nos alimenta.
Convocamos a COP 30, e todos os espaços de decisão climática, a reconhecer o
Pantanal como zona estratégica de resiliência global, e a garantir ações concretas,
mensuráveis e justas em sua defesa.
Chamamos a sociedade brasileira e internacional a agir:
1. A ciência precisa ser escutada.
2. A educação ambiental, social, empreendedora, inovadora e de valorizar os
resíduos como fonte de novas economias;
3. A voz dos povos precisa ser respeitada.
4. A terra, a água e o fogo precisam ser manejados com sabedoria e equilíbrio.
O Pantanal não é apenas um bioma, é uma lição viva de coexistência, um patrimônio
cultural material e imaterial, onde a ancestralidade de seus povos reverba o espírito da
floresta, um símbolo de esperança em tempos de crise.
Por fim, pelo direito de existir em harmonia entre o humano, a flora e a fauna!
Reconhecemos o Pantanal como o espelho do planeta: o que se perde aqui ecoa em
todo o mundo.
Que esta Carta do Pantanal à COP 30 ecoe como um manifesto pela vida, pela água e
pela justiça climática. Que sirva de base para um novo pacto entre humanidade e
natureza, em que o desenvolvimento não seja sinônimo de destruição, mas de
reconciliação.
O futuro depende de NÓS, que sejamos aqueles que escolheram agir antes que o
silêncio das águas se tornasse o lamento da terra. Que cada decisão, cada política,
cada investimento traga consigo o peso da responsabilidade e a leveza da esperança.
Porque regenerar o Pantanal é regenerar a nós mesmos. É resgatar o sentido de
pertencimento, de propósito, e o poder de transformar culpa em coragem, escassez em
abundância e ganância em cooperação.
Enquanto houver Pantanal, haverá futuro!
Enquanto houver quem acredite no poder da vida, haverá Pantanal, enquanto houver
Pantanal, haverá humanidade.