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PETIÇÃO PÚBLICA DOS PROPRIETÁRIOS DE VEÍCULOS e208 e e2008

Para: PEUGEOT/CITROËN DO BRASIL AUTOMÓVEIS LTDA (empresa inscrita no CNPJ sob o n.o 67.405.936/0001-73)

A) Contexto fático

Proprietários brasileiros dos modelos Peugeot e-208 e e-2008 relatam, de forma recorrente e consistente, um defeito grave que se manifesta por alerta vermelho no painel, falha total do ar-condicionado e, em diversos casos, travamento do veículo, impedindo sua utilização ou mesmo imobilizando de forma súbita o veículo (neste último caso, a montadora alega já ter feito atualização de software em campanha de recall específica). O problema é especialmente crítico porque, nesses modelos eletrificados, o sistema de ar-condicionado é parte essencial do controle térmico das baterias, afetando diretamente a segurança e a operação do carro.
A análise de centenas de mensagens trocadas em grupo de WhatsApp de proprietários revela:

1. Repetição do mesmo defeito em veículos diferentes, com baixa quilometragem e uso normal;
2. Tentativas de reparo sem padronização, envolvendo troca de chicote/cablagem e, majoritariamente, substituição do compressor do ar-condicionado;
3. Longos períodos de imobilização dos veículos em concessionárias, por vezes superiores a 30 (trinta), 60 (sessenta), 90 (noventa) ou mesmo 120 (cento e vinte) dias, em clara violação da garantia legal, que obriga a montadora a oferecer uma solução no prazo máximo de trinta dias; a demora se deve, sobretudo, à total ausência de peças de estoque no Brasil; por mais que a montadora ofereça aluguel de carro reserva, o proprietário acaba assumindo custos com gasolina por longos períodos, contrariando a própria ideia do consumo dos carros elétricos, que minimiza esse custo; as principais razões para a demora verificadas são a ausência de peças em estoque no Brasil, desconhecimento técnico da rede de concessionárias e ausência de coordenação na rede de concessionárias quanto ao tratamento do caso (cada uma atua de um jeito diferente, sem diretriz central para o mesmo defeito).
4. A montadora, durante a garantia, oferece veículo reserva aos proprietários. Mas, em razão do apontado no item 3, tais proprietários correm o risco ficar meses sem o veículo por um aparente vício oculto após o término da garantia, o que não soa razoável tendo em vista a essencialidade do bem para as famílias;
5. A montadora retirou dos veículos eletrificados a possibilidade de contratação da Garantia Adicional Peugeot Flexcare, um serviço de seguro que cobriria defeitos dessa natureza e que poderia tranquilizar proprietários após o término da garantia legal, o que pode indicar ausência de boa-fé objetiva da montadora em cobrir o defeito crônico relatado; este fator específico criou uma sensação de insegurança generalizada entre alguns proprietários, que passaram a sentir a urgência de se livrar do bem, temendo sua depreciação.

O conjunto dos fatos aponta para um problema estrutural, crônico, e não para casos isolados. Enquetes realizadas em grupo de WhastApp com 200 proprietários apontam para 10% a 20% de relatos dessas falhas. Ainda que não haja caráter científico em enquetes desse tipo, ela revela um número que sinaliza preocupação real dos demais proprietários que ainda não tiveram o problema.

B) Contexto técnico essencial

Diferentemente de veículos a combustão, nos carros eletrificados o sistema de ar-condicionado não é apenas um item de conforto. Ele é parte integrante do sistema de gerenciamento térmico da bateria, responsável por: (i) manter a bateria dentro da faixa segura de temperatura; (ii) evitar degradação acelerada; (iii) prevenir falhas de segurança que levam o sistema a entrar em modo de proteção.
Quando o sistema de ar-condicionado falha, o veículo pode desligar funções críticas ou simplesmente se recusar a funcionar, exatamente o comportamento relatado pelos proprietários.

C) Padrão de falhas relatadas

Com base nos relatos dos proprietários que enfrentaram o problema, o defeito surge de forma súbita, geralmente acompanhado de mensagem de alerta vermelho (Falha no sistema de propulsão elétrica – Repare o veículo). O ar-condicionado, então, para completamente de funcionar, e o veículo entra em modo de falha, podendo travar e impedir a condução.
Pelo travamento das rodas, em muitos casos, o carro precisa ser rebocado com serviço específico de reboque com trilhos. Relatos de proprietários incluem situações como: paradas subidas em avenidas, em estradas, e mesmo sob condições de clima desfavoráveis (como chuvas).
Não se trata de desgaste natural ou mau uso, mas de falha recorrente em diferentes unidades.
Sabe-se que, segundo a legislação consumerista vigente, há um desequilíbrio na relação jurídica de consumo, pois o conhecimento técnico acerca de produtos com esse nível de complexidade pertence ao produtor/fornecedor, sendo o consumidor o elo mais fraco da relação. A sensação de insegurança com o veículo tende a se acentuar, na medida em que as explicações e os reparos dados pela marca aos proprietários com problema são insuficientes, insatisfatórios, havendo mesmo casos de proprietários que retiraram o veículo “reparado” em concessionárias, para o problema ocorrer novamente menos de cem quilômetros após retirado o veículo.

D) Reparos tentados, ausência de peças de estoque e diagnósticos inconsistentes

As concessionárias e a própria rede Peugeot têm adotado soluções variadas: (i) troca de cablagem/chicote elétrico (minoria dos casos); (ii) troca do condensador do ar-condicionado (maioria dos casos); (iii) substituições sem explicação técnica clara ao consumidor.
Apesar das trocas, há relatos de recorrência do problema, o que indica que o reparo ataca o sintoma, não a causa raiz.
Também há relatos de consumidores que tiveram o mesmo problema mais de uma vez, o que sinaliza ausência de solução efetiva por parte da montadora, o que estende as chances de ocorrência do problema para depois do término da garantia legal.
Além disso, na maior parte dos casos, o reparo ultrapassa os 30 dias exigidos pela legislação consumerista, havendo casos de clientes que optaram pelo imbróglio jurídico contra a montadora, recusa do recebimento do veículo e pedido de devolução do valor pago por descumprimento do prazo legal. A montadora alega individualmente a esses proprietários que a demora se deve à necessidade de importação das peças, o que revela descaso com a manutenção do estoque para sanar um problema que tem caráter frequente, comum e não raro. Ora, se há um percentual considerável de veículos que têm ou terão o problema, o mínimo que se espera é um estoque mínimo que agilize essas substituições em nosso país.

E) Impactos ao consumidor

Os efeitos para os proprietários são severos:

a) veículos novos ou seminovos inutilizados por semanas ou meses;
b) perda de confiança no produto;
c) risco à segurança operacional;
d) depreciação acentuada do bem, combinada à dificuldade de revenda pela ausência de recall;
e) insegurança jurídica e técnica sobre a real conformidade do veículo às normas internacionais de segurança.

F) Interesse público e relevância jornalística

Este caso envolve indícios de riscos à segurança do consumidor; falta de transparência técnica; ausência de conformidade de produto com normas internacionais; prática de redução de custo em detrimento da segurança; possível violação ao princípio de boa-fé objetiva e ao Código de Defesa do Consumidor.
Não se trata de uma reclamação isolada, mas de um padrão nacional e internacional, documentado por dezenas de proprietários no Brasil e no exterior.

G) Ausência de oferta da garantia estendida

A Peugeot, visando a melhorar a confiabilidade de seus produtos perante o mercado brasileiro, que tem uma tendência a desconfiar da marca, iniciou uma política de extensão da garantia legal. Com isso, oferece um seguro (a ser contratado pelo interessado, desde que o carro ainda esteja dentro da garantia legal e abaixo de certa quilometragem definida) que aumenta a cobertura de itens do carro, podendo ser contratada para um ou dois anos (Garantia Adicional Peugeot Flexcare).
Alguns proprietários, temendo o término da garantia e o aumento dos custos relativos aos problemas descritos, contrataram essa garantia estendida Peugeot, oferecida em algumas concessionárias até outubro de 2025. Outros proprietários, ao tentarem fazer o mesmo posteriormente, tiveram seus pedidos negados, pois a Peugeot retirou a oferta dessa garantia aos veículos eletrificados. Ao acessar o site da marca em 27 de fevereiro de 2026, a página informa:

Importante: Os preços das ofertas estão suscetíveis a alterações sem aviso prévio, e são válidos para todas as versões e motorizações de cada modelo, exceto para as versões elétricas”.

Disponível em: https://www.peugeot.com.br/servicos-e-manuais/flexcare/garantia-adicional.html.
Acesso em: 27 fev. 2026.

H) Reconhecimento do problema na Europa

É importante contextualizar que os veículos e208 e e2008 comercializados no Brasil são totalmente importados da Europa. Por isso, embora em nosso país tenha havido a comercialização de poucas unidades (cerca de 500 no total), na Europa o veículo foi um sucesso de vendas, sendo a versão eletrificada responsável por aproximadamente 18% das vendas dos modelos em questão, desde o lançamento em 2019.
Para obter mais informações sobre o defeito, membros do grupo que assinam esta petição entraram em contato com grupos de proprietários na Europa. Em documentos obtidos com consumidores europeus, foram obtidos diversos relatos, trocas de e-mails entre proprietários e montadora/concessionárias e ordens de serviço. Em alguns desses documentos, a montadora na Europa reconhece o caráter crônico do defeito e se posicionou sobre a cobertura dos reparos mesmo após o término da garantia legal (obtivemos os seguintes boletins técnicos internos: D1CWO128Q0, C5HWO15PQO e E1A8014NPO). Proprietários dos veículos na Europa também nos enviaram ordens de serviço, comunicações via e-mail entre concessionárias e consumidores reconhecendo o caráter crônico do defeito.
Em tentativas de contato individuais com a montadora no Brasil para pedido de posicionamento, os proprietários locais tiveram somente o silêncio da montadora, que ignorou os pedidos de reconhecimento. Essa é a principal razão da petição pública presente.

I) Conclusão e pedido

Os elementos reunidos indicam um escândalo técnico e comercial envolvendo os Peugeot eletrificados vendidos no Brasil. A recorrência das falhas, e a dependência crítica do ar-condicionado para a segurança do veículo elétrico, além do silêncio da montadora no Brasil, exigem apuração imediata pela imprensa, órgãos de defesa do consumidor e autoridades competentes.
Diante do exposto, os proprietários dos veículos e208 e e2008 solicitam à Peugeot um posicionamento transparente, com detalhamento técnico dos riscos e medidas de reparo para evitar que veículos (bens de consumo em tese duráveis) tenham seu fim último inviabilizado. Pedimos também informações estatísticas sobre a quantidade de veículos reparados em relação ao total vendido no Brasil e na Europa para avaliação da extensão do problema.
Os proprietários também exigem da montadora um posicionamento sobre a retirada da oferta da garantia estendida para veículos elétricos, o que pode apontar para má-fé objetiva da montadora, que não quer arcar com custos altos de reparo de defeitos crônicos após o término da garantia contratual.
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Esta petição foi criada em 28 fevereiro 2026
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