Troca do nome : Império Cigano
Para: Hathor Festival- Festival Internacional de Danças Árabes
Carta Aberta:
“Império Cigano”: a manutenção do nome é a perpetuação do anticiganismo
Em outubro, a cidade de Curitiba será palco do Festival Internacional de Danças Árabes Hathor, que traz em sua programação o espetáculo intitulado “Império Cigano”.
Alertamos publicamente e por vias formais: o nome deste espetáculo e a forma como a nossa identidade vem sendo utilizada são inaceitáveis.
Cigano não é personagem de espetáculo, não é estética de dança e não é fantasia mística. É identidade étnica. Os povos Rom, Sinti, Calon e Calé possuem histórias, culturas e saberes reais que não podem ser reduzidos a figurinos, moedas ou visões romantizadas para entretenimento e lucro de terceiros.
A contradição do termo "Império"
A história dos povos ciganos foi, e continua sendo, marcada por perseguições, expulsões, tentativas de assimilação forçada e apagamento sistêmico promovidos por impérios e estados. Associar a palavra “Império”, símbolo máximo de dominação, poder centralizado e opressão à trajetória de povos que resistiram justamente à margem dessas estruturas é uma violência simbólica e uma grave distorção histórica.
Não existe e nunca existiu um “Império Cigano”. Criar e mercantilizar essa imagem fantasiada ignora a luta concreta das nossas comunidades por sobrevivência e direitos básicos.
Respeito não é opcional. A troca do nome é imperativa.
Reconhecemos as pequenas alterações pontuais feitas na divulgação após nossas manifestações formais. No entanto, a manutenção do título “Império Cigano” e a ausência de protagonismo cigano na construção do evento mantêm o problema central intocado.
A liberdade de criação artística não se sobrepõe à dignidade de um povo, tampouco concede salvo-conduto para a prática da apropriação cultural. O Estado brasileiro reconhece o anticiganismo como uma forma de racismo que precisa ser combatida. Insistir no uso de um termo abertamente rejeitado pelas próprias comunidades ciganas ultrapassa a linha da desinformação e passa a configurar desrespeito deliberado.
Não aceitaremos que a nossa identidade continue sendo contada, vendida e distorcida por quem recusa a nos ouvir.
Exigimos dos organizadores do espetáculo e da direção do Festival Hathor:
A imediata alteração do nome do espetáculo “Império Cigano”, eliminando qualquer termo que promova a distorção histórica e a estereotipação dos nossos povos;
A retratação pública e o compromisso ético de não mercantilizar identidades étnicas sem o devido protagonismo e validação das comunidades que as constituem.
Cultura se celebra com respeito, responsabilidade e reparação histórica. Não há espaço para celebração baseada no apagamento de quem se pretende homenagear.