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Carta Aberta à Dimas - Contra o veto a ações culturais no Hall da Walter

Para: Ilmo Sr José Bertrand Duarte Oliveira



Na condição de artistas, técnicos e produtores culturais, integrantes de coletivos que
vêm realizando diversas ações de ocupação artística no Complexo Cultural dos Barris,
muitas delas ocorrendo também, mas não exclusivamente, no espaço do Café da Sala
Walter da Silveira, tivemos encaminhada pelos gestores do Café um comunicado oficial
assinado por V.S.ª com a determinação de que “a partir da presente data fica
terminantemente vedado (sic) a realização, promoção ou apoio a qualquer evento
promovido”, por parte dos gestores do referido espaço. O Comunicado, que não nomeia
os diversos agentes que de fato promovemos e realizamos os eventos (estes também não
mencionados), nos deixou extremamente surpresos com a notícia, com a celeridade da
interdição e, sobretudo, com as poucas justificativas apresentadas para tal determinação,
em que pese muitas dessas atividades já estarem programadas inclusive para o mês em
curso, com ampla divulgação junto à DIMAS e aos diversos meios de comunicação.
V.S.ª interdita (assim interpretamos o sentido metafórico do verbo vedar usado no
texto), por parte dos administradores do Café, o apoio, a realização e a promoção de
“eventos de natureza artística” no foyer da sala Walter da Silveira, sob as alegações de
que tais atividades interfeririam “sobremaneira” na atividade fim das salas exibidoras,
bem como não condizem com a finalidade do Café, que seria “exclusivamente, o
atendimento ao público frequentador das Salas de Cinema e Exposição”, palavras do
senhor.
Nossa primeira surpresa: as aspas em referência à realização de “eventos de natureza
artística”. Considerando-se que aspas servem para demarcar um depoimento em
discurso direto, para sinalizar dúvida ou distanciamento por parte de quem as usa,
gostaríamos de fazer alguns esclarecimentos. Trata-se, sim, de ações de ocupação
artística de um equipamento público, não só comunicadas à DIMAS, como também
realizadas, promovidas e apoiadas pela referida Diretoria – em especial nos últimos 18
meses em que tais ações se intensificaram sobremaneira. Para comprovar que tais
atividades, a saber, saraus como o Pós-Lida (este inclusive tendo sido convidado
diretamente pela DIMAS), Sarau Bem Black e o Dominicaos; Cafofeira, rodas de
conversa; lançamentos de livro, Cd’s e DVD’s; Cinema Expandido; atividades de
contação de história; recomendamos que Vossa Senhoria consulte os materiais de
divulgação de muitos desses eventos, que constam na própria Programação da DIMAS,
em seu site e em material impresso, bem como consta no relatório final do diretor o qual
o senhor sucede. Muitas dessas ações contam com parceria com outros órgãos públicos,
como o IRDEB e a Rádio Educadora. Manter um tom que sinalize informação recente e
não sistematizada, que ponha em dúvida a natureza artística do evento ou
distanciamento do diretor sobre as ações que sua diretoria vem apoiando, realizando e
promovendo não condiz com a posição de um gestor. Pelo contrário, as expressões
“tomei conhecimento”, “tive ciência”, sem nenhuma referência às fontes de informação
indicam, no mínimo, uma descontinuidade entre as gestões, transição que se dá, ao que
parece, sem consulta aos documentos burocráticos que deveriam nortear suas ações. A
consulta ao relatório de gestão localizará uma programação aprovada pela Diretoria e
que em respeito ao trabalho de preparação por parte dos realizadores, precisa de um
mínimo de tempo para as devidas providências, eventuais adaptações e/ou, em último
caso, transferência de local ou cancelamento das atividades.
Exatamente por se tratar de ações devidamente orquestradas entre coletivos, artistas e
produtores, bem como junto à diretoria da Biblioteca dos Barris, nos surpreende que tais
ações venham a atrapalhar a atividade fim das salas de exibições. Muitas das ações,
justamente por serem programadas em comum acordo com a DIMAS, preveem
suspensão parcial ou total das atividades da sala. Ou ainda se harmonizam com elas. Por
exemplo, no último Dominicaos (31 de junho), as exibições duraram até as 18h30,
momento a partir do qual foram usados o microfone e o equipamento de som. Nesse
mesmo evento, a temática não só abraçou a programação da sala de cinema, como a
incorporou em seu próprio nome: Fellinicaos. Conclui-se, portanto, que existe, sim, não
só ciência de tais eventos, como anuência e apoio por parte da Diretoria que muito
recentemente V. Sa. assumiu.
Um breve levantamento dos relatórios de bilheteria da Sala Walter e das listas de
presença da Sala Alexandre Robatto e da Sala Pierre Verger comprovará que a
frequência aumentou significativamente nos últimos 18 meses nesses equipamentos.
Nossas ações, a bem dizer, nem todas necessariamente apoiadas com recursos
financeiros do poder público, têm em comum um engajamento de artistas, técnicos e
produtores preocupados com a subutilização dos equipamentos públicos (com isso nos
referimos a todos os equipamentos do Complexo Cultural dos Barris, incluindo a
Biblioteca Pública e seus setores) que assumem o compromisso de revitalizar o espaço,
que consideramos, assim como V.S.ª, estratégico para um posicionamento de atividades
de natureza artística e cultural.
Ao afirmamos a subutilização dos equipamentos públicos, recorremos também às
nossas memórias de usuários do equipamento. Pois é importante lembrar que todos nós
somos antes de tudo frequentadores das salas de exibição, da Galeria Pierre Verger, da
Biblioteca e do Teatro Xisto Bahia. Além de contribuintes, consumidores, cidadãos e,
por isso tudo também merecemos consideração e escuta. Muitos de nós frequentamos e
oferecemos oficinas e cursos realizados nas dependências do Complexo e sabemos das
dificuldades de acesso relacionados a mobilidade urbana, segurança pública e
acessibilidade. O Complexo Cultural dos Barris não dispõe, por exemplo, de vaga para
pessoas com necessidades especiais. A acessibilidade para alguns setores, como, por
exemplo, para a Sala Walter, exige um esforço sobre-humano por parte dos cadeirantes.
Esses são tipos de situação que precisamos externar e que podemos comprovar na
prática. Nossa política de ocupação vem trazendo público real e diverso, inclusive de
pessoas com necessidades especiais, e assim criamos demanda para mudanças que
consideramos cruciais para a dinamização desse equipamento estratégico para um
posicionamento positivo da imagem que os cidadãos têm da condução das políticas
públicas de cultura da atual gestão do Estado da Bahia. Entendemos que essas devem
ser preocupações compartilhadas entre gestores, agentes culturais e usuários dos
Estranhamente, V.S.ª parece desconhecer o fato de que há uma organicidade e uma
vitalidade nas relações entre poder público e agentes culturais, que é muito muito mais
complexa do que a que se estabelece com comunicados e outros expedientes
burocráticos. O que nos espanta ainda mais, sendo V.S.ª, antes de gestor, artista.
Se pensarmos ainda em “atividade fim” como argumento indiscutível para justificar
interdições, como justificar que no mesmo dia em que o referido comunicado foi
entregue aos gestores do Café aconteceu um show musical na Sala Walter da Silveira e
por orientação de V.S.ª o Sarau Bem Black foi realizado na Galeria Pierre Verger? Ou
como explicar que a Diretoria de Imagem e Som está instalada no subsolo da Biblioteca
Pública – prédio cuja atividade fim seria a promoção do livro e da leitura? Adiantamo-nos na resposta para afirmar: não se trata de um problema, mas de soluções inteligentes que levam em consideração a dinâmica das ocupações dos equipamentos públicos. Essadinâmica é saudável para a economia das relações entre poder público e cidadãos, promovendo inclusive a imagem dos gestores que a promovem.
Pretendemos continuar ocupando o Complexo Cultural dos Barris e todas as suas
dependências destinadas ao uso público, porque entendemos que essa ocupação é um
ato político de promoção da arte e da cultura e que eventos de natureza artística são
instrumentos importantes para a promoção do livro e da leitura, do cinema, da música,
da performance, da contação de histórias, da literatura, da pantomima, da ilustração, da
cultura como um todo. O Café, as escadarias, o teatro, as salas de leitura precisam ser
mais e mais ocupados por esse público diverso que ajudamos a trazer para o Complexo.
Com muita alegria vemos jovens negras e negros de diversos bairros de Salvador se
deslocando de suas casas para prestigiar o Sarau Bem Black. Com muita alegria
ouvimos depoimentos de frequentadores de nossas ações artísticas e culturais que
confessam a surpresa de tomar conhecimento de que a Sala Walter continua
funcionando e que a partir daquele momento voltarão a frequentar o local. Com muita
alegria vemos crianças correndo pelas escadarias e dependências do Complexo
enquanto são realizadas as atividades por nós promovidas. Promovemos ocupação e
formação de público e fazemos isso com alegria, compromisso e seriedade.
Lembremos que em tempos de contingenciamento, em que a Agenda Cultural não tem
mais versão impressa, somos também promotores das ações do poder público,
veiculando suas marcas (da DIMAS, da Biblioteca, Do Xisto, da Funceb, da FPC, do
Governo do Estado da Bahia) em eventos que muitas vezes o poder público não
dispensou nenhum custo efetivo, cedendo apenas os equipamentos, ou, quando ocorreu,
investiu recursos mínimos. Nós investimos tempo e dinheiro nessas ocupações e
também nos surpreendemos que, em tempos de escassez de recursos, em vez de
reconhecimento e estímulo para que mais e mais eventos como esse aconteçam sem
dispêndio do erário público, termos, muito ao contrário, a notícia de uma interdição
imediata.
Expressamos também nosso apoio à atual gestão do Café da Sala Walter, que vem acolhendo nossas ações de ocupação e tem uma compreensão muito abrangente do que seriam as atividades fim de um equipamento cultural. Lamentamos profundamente que a gestão fique impedida por V.S.ª de nos acolher.
Feitas essas observações preliminares, e na certeza de que esse episódio se constituirá no início de um diálogo democrático e construtivo, pedimos a V.S.ª, em regime de urgência, o agendamento de uma reunião para definirmos em conjunto as diretrizes para a ocupação que seguirá em curso, em especial nas dependências administradas pela DIMAS. Faremos o mesmo procedimento com as administrações da Sala Xisto e da Biblioteca Pública dos Barris. Temos certeza de que esse diálogo resultará em uma dinamização ainda maior nas relações dos cidadãos com os equipamentos do Complexo, promovendo não só as ações como também os gestores que sabiamente lidam de forma madura e democrática com as demandas da sociedade civil. Manteremos a agenda que, se não ocorrer nas dependências do equipamento público, acontecerá nas ruas e, neste caso, com ampla divulgação na mídia e nas redes sociais de que a ocupação foi forçosa e literalmente posta nas ruas para ampliar, assim, o debate sobre as políticas de uso dos equipamentos públicos do Complexo Cultural dos Barris e, em especial, das dependências administradas pela DIMAS, atualmente sob a gestão de V.S.ª.
Sem mais e aguardando em regime de urgência o agendamento da reunião, despedimo-nos cordialmente,



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Esta petição foi criada em 09 junho 2015
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