Repúdio a Missa Realizada para tratar Brilhante Ustra como herói
Para: CNBB
Exmo. Sr. Dom Leonardo Ulrich Steiner
Secretário Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Brasília, 20 de outubro de 2016
Caro Dom Leonardo,
Foi com muita indignação que soubemos pela imprensa a respeito da realização, no dia 15 de outubro último, de uma missa em homenagem ao primeiro ano da morte do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Esta missa foi realizada na Paróquia Militar de São Miguel Arcanjo e São Expedito, na Asa Norte desta Capital, pelo Pároco, Coronel Capelão José Eudes da Cunha, Chefe do Serviço de Assistência Religiosa do Exército.
Em sua homilia, o Coronel Capelão José Eudes teria se referido ao Coronel Brilhante Ustra como “herói que lutou pela justiça e pela paz, mas que acabou sendo incompreendido”.
A sociedade brasileira sabe, por intermédio das conclusões da Comissão Nacional da Verdade, que durante a gestão do Coronel Brilhante Ustra como Comandante do DOI- CODI de São Paulo, no período de 1970 a 1974, ocorreram ali pelo menos 55 assassinatos e desaparecimentos de presos políticos. A Comissão Nacional da Verdade afirma que o Coronel Brilhante Ustra “teve participação direta em casos de prisão ilegal, tortura, execução, desaparecimento forçado e ocultação de cadáver.”
No final de sua vida, o Coronel Brilhante Ustra era alvo de ações de ex-presos políticos e do Ministério Público, das quais se livrava com base na Lei da Anistia, de 1979. A ação mais conhecida é da famíla Teles, cujos adultos CésarTeles (já falecido), Amélia e Criméia foram presos e brutalmente torturados por Ustra durante vários dias; que manteve em cárcere também os filhos de César e Amélia, Janaína, então com 5 anos de idade, e Edson Luís, então com 4 anos de idade, que foram levados à presença dos pais, dilacerados após as sessões de tortura. Criméia Teles se encontrava grávida (seu filho João Carlos) e foi igualmente torturada por Ustra, para arrancar informações de sua irmã Amélia Teles.
Com tudo isso, solicitamos à direção da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que não permita que homenagens como esta voltem a acontecer, nas quais assassinos e torturadores, inclusive de muitos cristãos e cristãs e membros de diversas igrejas do Brasil, venham a ser qualificados de “heróis”.
Consideramos homenagens, injustas e equivocadas como esta, um verdadeiro desrespeito à memória das vítimas e a seus familiares, além de um incentivo ao ódio e à intolerância.
Que não se repita, nunca mais!