CARTA ABERTA DOS PROFESSORES DOS CURSOS DAS ÁREAS DA SAÚDE DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA À POPULAÇÃO SOBRE O MOVIMENTO DE GREVES E OCUPAÇÕES
Para: Comunidade londrinense; Reitoria da UEL
Cara população de Londrina e região,
Nós, professores dos cursos de Medicina, Enfermagem, Farmácia e Bioquímica, Fisioterapia, Odontologia e áreas básicas da Universidade Estadual de Londrina, lotados em diversos departamentos, signatários desta, vimos por meio desta carta aberta manifestar a nossa posição em relação aos últimos movimentos discentes, docentes e de funcionários desta Universidade, bem como fazer esclarecimentos e solicitações aos órgãos competentes.
Estamos todos muito preocupados com o atual momento social, político e econômico do país. Por vias culturais (manifestações de rua e pelos meios de comunicação digital), legais (constitucionais) e institucionais, vivemos um ambiente de mudança e transformação de vários paradigmas de relações na nossa sociedade, que estão trazendo à tona a necessidade de inevitáveis mudanças no modo de gestão da coisa pública, fazendo com que setores da sociedade reajam contra este movimento.
O nosso país está afundado num ambiente de dificuldades e incertezas. Estamos acompanhando o derretimento de uma fantasia de moral e bons costumes dos nossos governantes e da classe política que, por décadas, se alimentou da esperança e da ingenuidade da população e levou o país, pela sua inquestionável péssima conduta gerencial, administrativa e, sobretudo moral, a um inferno.
Este inferno é generalizado e, por exemplo, se mostra tanto num estado inchado, com uma das maiores cargas tributárias do mundo (com o retorno pífio dos impostos), como também na dimensão econômica onde, sobretudo os trabalhadores da área privada, os empresários, mas também os trabalhadores da área pública (com a imensa desvalorização da nossa moeda), se veem ameaçados na sua condição de mínima dignidade, conforto e expectativa de um futuro estável.
Não foge deste inferno o ambiente educacional deste país (como em qualquer outro país mais “livre” do mundo ocidental), que sempre foi o fiel depositário da vanguarda das reflexões sobre a evolução histórica e cultural da sociedade (tendo como primícia essencial fazer crescer o gênero humano) porque está contaminado por vieses de acepção da realidade.
Não estamos vendo um movimento de vanguarda porque atualmente estamos assistindo à atuação de grupos dentro das escolas e da nossa Universidade que, por acepções pessoais de grupo, de cunho ideológico, querem impor à totalidade aos alunos, funcionários e docentes, um movimento de greve (inclusive a greve dos estudantes) e paralisação que nós docentes não concordamos, não apoiamos e não queremos.
Todos sabemos o quanto é essencial a área da Saúde e das profissões que a compõem na nossa sociedade. As estruturas da UEL que compõem o ensino básico dos cursos do Centro de Ciências sda Saúde, o complexo de atendimento à saúde da população de Londrina e região como a Clínica de Odontologia (a maior clínica do interior do Estado do Paraná e seus equipamentos), o Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná (HU) e suas estruturas associadas, que é o maior hospital da região e conta com uma longa tradição de prestação de serviços à população, tanto na formação de profissionais da saúde, na pesquisa, bem como na assistência direta à população impactam muito a saúde de Londrina e região.
A maioria de nós trabalha com os colegas que foram nossos professores e que se formaram na UEL. Trabalhamos aqui em diversos regimes de dedicação e certamente somos bastante orgulhosos do nosso trabalho, com todas as dificuldades que enfrentamos e que nos assolam diuturnamente.
Não vamos entrar na longa lista de mazelas que nos afetam, sobretudo a falta crônica de recursos e as dificuldades em acomodar a todos, de melhor forma, que necessitam dos cuidados em saúde, mas temos certeza que o trabalho dos nossos serviços não para e não pode parar.
Concordamos e clamamos por justiça salarial e de condições de trabalho, desde as melhorias e modernização de ambientes e equipamentos até o necessário aumento do número de docentes em algumas áreas. Destacamos também que a atuação do nosso governo, não só atual, mas também nas várias administrações anteriores, tem sido ultrajante no cuidado de várias demandas em relação a diversos setores públicos, sendo a saúde um dos que mais chama a atenção pela sua posição central e delicada na nossa sociedade.
Não obstante a todas as críticas que, como docentes, também fazemos a esta administração estadual, como o descumprimento da lei de reposição salarial, e certos de que o trabalho do servidor público deve ser valorizado, dentro das realidades possíveis, reiteramos que, neste momento, não concordamos com um movimento de greve como este.
A ameaça de um movimento de greve por outros setores da nossa Universidade, junto com a ameaça de grupos grevistas em atrapalhar os nossos trabalhos, nos deixa muito preocupados, e por isso esclarecemos à população os seguintes pontos:
1 – Os serviços de saúde da UEL e o HU são estruturas essenciais ao delicado sistema de saúde local e regional;
2 – Os serviços de saúde da UEL e o HU contam com vários cursos de graduação, pós-graduação e pesquisa em saúde e diversas áreas que não podem interromper as suas atividades;
3 – Os serviços de saúde da UEL e o HU devem funcionar como uma instituição autônoma, apartidária e isenta de conflitos de interesse que não correspondam aos interesses autênticos da Universidade, da sua população bem como de toda a população de Londrina, região e Estado, e devem funcionar de forma isenta a qualquer movimento ideológico;
4 – Os Docentes dos serviços de saúde da UEL e o HU não apoiam o movimento estudantil de ocupação de escolas e Universidades, uma vez que vemos que este movimento atende a interesses de setores específicos da sociedade, e não à sociedade como um todo;
5 - Este grupo de docentes não apoia o atual movimento de greve e decidiu por não interromper as suas atividades caso outros colegiados desta Universidade, em especial associações sindicais, decidam na sua dinâmica própria por isso;
Para tanto, deixamos claro à população que nós, docentes dos serviços de saúde da UEL e o HU, não pararemos as nossas atividades, neste cenário atual.
Desta forma solicitamos à Reitoria desta Universidade:
1 – Respaldo institucional à decisão deste grupo docente,
2 – Garantias de respeito à vontade deste grupo, que não quer interromper os trabalhos de ensino aos estudantes da área da Saúde desta Universidade e a assistência à população;
3 – Apoio aos alunos e funcionários que se solidarizem com este movimento.
Sendo assim, finalizamos conclamando todos os setores interessados da sociedade a participar das discussões sobre os rumos da UEL e solicitamos apoio das instituições interessadas, para que possamos garantir o nosso direito de trabalhar pela melhor educação e formação dos nossos estudantes e a execução do melhor trabalho para a nossa população.
Docentes dos Cursos de Saúde da Universidade Estadual de Londrina.