USURPAÇÃO CULTURAL DOS CIGANOS
Para: Exmº Sr Rossano Dotto Gonçalves, Prefeito Municipal de São Gabriel, RS. Exmº Sr Claudiomiro Borges da Silveira, DD. Presidente da Câmara Municipal de São Gabriel, RS
Os rromá, designação genérica que abrange povos de diferentes etnias e sub etnias presentes na História Ocidental desde de o século XII e chamado ciganos, formam um conjunto social, composto por valores e patrimônio cultural próprios que, em detrimento de toda perseguição, preconceito, exclusão social e tentativas de extermínio de um povo como as promovidas pela Inquisição Ibérica e pelo III Reich, sobrevive em quase todo mundo, ainda que o anticiganismo muitas vezes, seja adotado como política de estado.
Como forma de resistência ao anticiganismo, motivada de maneira especial pelos cerca de um milhão de ciganos mortos anos antes nos campos de Hitler, foi organizado em 8 abril de 1971 em Orpingtion, Inglaterra, o I Encontro Internacional dos Povos Ciganos, o qual, além de divulgar a real situação de exclusão social dos ciganos, definiu estratégias de promoção da cultura, e de visibilidade internacional deste grupo social. Assim sendo, desde esta data o dia 8 de abril foi definido como “Dia Internacional dos Povos Ciganos”, data que também adotou a bandeira tricolor como documento vexilologico da Nação Rromá.
Desta forma, causou-nos a mais profunda estranheza o fato de vosso município vir a sediar, conforme folder eletrônico amplamente divulgado nas redes sociais (anexo), nos próximos dias 26 a 28 de maio, o I Encontro Internacional dos Povos Ciganos. Além de tal promoção vir a desconsiderar, no mínimo, setenta anos de mobilização internacional dos povos ciganos, desconsidera também os vários grupos e coletivos de defesa e promoção da cultura cigana com representatividade inclusive junto a órgão oficiais de defesa dos direitos humanos, em níveis estaduais e federal, pois nenhuma dessas instâncias foi cientificada de sua realização, nem mesmo título colaborativo.
A divulgação do evento deixa claro tratar-se de pareceria entre a iniciativa privada e a Prefeitura Municipal de São Gabriel, através de sua Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Cidadania e Direitos Humanos, a ser realizada por entidade social de matriz afro-brasileira.
Ainda que cientes de que a Umbanda, como religião dinâmica e abrangente, prevê a incorporação de entidades com identidades étnicas definidas (negros, índios, baianos, entre outros) em seu panteão, tendo tal ocorrido com os ciganos, o respeito dos ciganos pela Umbanda é o mesmo que este povo tem por toda e qualquer religião, não havendo nenhuma “religião cigana”.
Porém, não podemos ser coniventes com o fato desse evento, ao pretender-se algo sem representatividade ou legitimidade alguma, venha a se apropriar de nosso patrimônio étnico-cultural. E que venha a apresentar-nos, de forma inegavelmente comercial como um “alegre povo”.
Ainda que sejamos inegavelmente um povo alegre, como de ordinário são os povos pacifistas, o mínimo que cabe a um pretenso evento auto denominado I Encontro Internacional dos Povos Ciganos fazer é dar voz a esse povo historicamente excluído, marginalizado e alijados dos mais elementares direitos sociais.
Sendo assim, nós, ciganos e defensores dos direitos humanos apelamos a Vossas Excelências como o objetivo que esse evento não venha a ser realizado.
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