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Abaixo-assinado de Apoio ao Espaço Fluxo

Para: Secretaria de Cultura; Conselho Municipal de Cultura; Prefeitura de Belo Horizonte

Imaginem um centro cultural que desenvolve e apoia uma série de inciativas locais e que atua, de forma criativa e aberta, em vários flancos, promovendo a música, as artes plásticas, a poesia e a gastronomia, além de encontros entre as diferentes formas de expressão artística e também entre pessoas, entre ideias.

Agora, peço-lhes que empreendam o desagradável exercício de tentar converter esse espaço e essas iniciativas em um perigo moral iminente, em uma ameaça, em um despautério, em uma afronta. Parece difícil?

Infelizmente não é, pelo menos algumas pessoas. Todos temos em nossas mentes uma série de apriorismos, de desinformações prontas, que recebemos passivamente em algum momento de nossas vidas sem perceber; refugo que está ali e ponto. Por vezes, nossos apriorismos encontram-se tão arraigados que se tornam quase estruturais, basilares. Se não tomarmos cuidado, podemos construir toda a nossa personalidade e nossa escala de valores com base em ideia cujas origens desconhecemos e que têm a força racional de uma simples frase feita que não pode e não carece ser explicada; de um aforisma retumbante e vazio.
Quando algo, por menor que seja, sugere, sem querer, que, esses valores basilares podem estar um pouquinho equivocados, é natural que sintamos medo.

Pois: o medo do novo em uma mentalidade estruturada sobre uma base refratária a qualquer mudança, minúscula que seja, opera a mágica retórica capaz de transformar um centro cultural em uma ameaça sem muita dificuldade. Basta que você pegue seus preconceitos mais à mão, recheie com o discurso ensandecido de seu programa de jornalismo policial predileto, tempere com imprecações de “ordem” e “respeito” e sirva às autoridades municipais em uma forma de verdade pronta. Voilá. Tem-se um prato típico de fast food mental, facílimo de ser digerido por quem não prestou a devida atenção aos malefícios que podem ser causados pelos ingredientes.

Recentemente travei conhecimento com um centro cultural nos moldes que descrevi na primeira parte deste desabafo, o Espaço Fluxo, que se localiza na Rua Bueno Brandão, bairro Santa Teresa, em Belo Horizonte. Os profissionais que ali atuam são pessoas conscientes e agem dentro dos limites estritos da legalidade. O volume do som é monitorado por aparelhos,os eventos abertos se circunscrevem a uns poucos dias por semana e invariavelmente terminam antes das dez. O espaço é mantido por uma ONG registrada e tem todos os alvarás de funcionamento em ordem.

No entanto, o espaço tem sofrido constante assédio dos vizinhos. São comuns os xingamentos contra as pessoas que trabalham no espaço gritados por pessoas na rua e abordagens nas proximidades, com teor agressivo. Pessoas de prédios vizinhos jogam objetos no quintal do Centro Cultural durante os eventos, todos eles organizados em horários permitidos e com o volume do som controlado. Recentemente foi organizado um abaixo-assinado onde sugere- se que o Fluxo é um ponto de venda e consumo de drogas e que não respeita o volume de som permitido. Esses moradores nunca tentaram dialogar com o Fluxo, não conhecem ou frequentam o espaço e, todas as vezes que a polícia ou a fiscalização compareceu ao local, não foi constatada qualquer irregularidade. Qual seria a razão do assédio? Na falta de razões lógicas, resta a hipótese...

Os profissionais são jovens. Alguns têm tatuagens ou cortes de cabelo pouco ortodoxos. Piercings, oh Deus! Piercings! E pecado dos pecados: têm a empáfia de saírem por aí dizendo que são artistas e que vivem disso. Esses “poréns”, associados a uma música de volume razoável e a uma razoável frequência de pessoas que têm o mesmo perfil “amedrontador” dos sócios e parceiros do centro cultural levou algumas pessoas da vizinhança do espaço a concluírem que o local é um ponto de venda de drogas, um ponto de encontro de vagabundos imorais ou algo do tipo – uma ameaça indiscreta e persistente ao seu estilo de vida.

Essas pessoas, que vivem próximas ao espaço, mas, ao invés de tentarem conhecer o que se passa ali e, eventualmente até desfrutar dos encontros e das possibilidades oferecidas pelo estabelecimento, resolveram se refugiar em seus apriorismos e no medo mascarado de tolerância intransigente, estão ameaçando a existência de um espaço promissor e de um trabalho sério.

O Fluxo apresenta o seguinte manifesto como forma de externar seus propósitos e crenças e de reafirmar sua postura na luta contra um sociedade sem preconceitos e onde a arte e a cultura sejam encaradas não apenas como trabalho, como ofício, mas como agente transformador da sociedade.

Att, Pedro Munhoz.
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Abaixo assino que o manifesto que narra descritivamente as atrocidades enfrentadas no percurso de nove meses de instalação do Espaço Fluxo {espaço destinado à fruição de atividades artísticas}, é um texto que representa minha indignação.

Trabalhadores da revolução cotidiana > MULTIPLICAI-VOS
Construtores dos alicerces da cultura > AGLOMERAI-VOS

SOBRE O QUE FAZEMOS:

- Fazemos do absurdo o nosso terreno a fim de erguer uma casa que abrigue múltiplos processos
- Reafirmamos o hibridismo e mestiçagem para contribuir com a difusão da identidade brasileira
- Dispensamos os automatismos da individualidade para somar em um corpo-coletivo a resistência frente as demandas cruéis de um sistema vigente de arte
- Compreendemos com prazer nosso dever de responsabilidade social e esclarecimento frente aos dispositivos malignos do poder
- Acordamos diariamente para a devida contribuição no desenho da nossa geração com a arte que transforma a realidade
- Acreditamos na troca de saberes como mecanismo eficiente da educação brasileira
- Afirmamos a fruição do processo como ferramenta de compreensão da arte e desenvolvimento de indivíduos mais críticos
- Fazemos do pensamento, exercício diário e vital para a revolução diária na legitimação de uma nova realidade cultural em nosso país

O QUE COMBATEMOS PELO QUE FAZEMOS:

- Indivíduos hostis, dotados de desinteresse em questões culturais e na transformação da sociedade
- Coletivo de indivíduos com discursos esvaziados, preconceituosos, sem fundamento algum
- Abuso de suposto poder e constantes ameaças sob o uso de discursos inflamados
- Desinteresse em compreender ou ao menos conhecer o projeto a que se destinam tais críticas
- Violência verbal e física em função da situação geográfica da casa (ovos!)
- Uma vizinhança que se camufla no breu do anonimato para exercer a revelia da violência, uma crueldade socialmente localizada
- Ainda uma vizinhança pequeno-burguesa que temerosa ao público indiscriminado {freqüentador do espaço fluxo}, quer se apropriar dos espaços públicos, ainda do inteiro bairro Santa Tereza para fundar os quintais de suas propriedades burguesas e pior: particulares.

DELICADAMENTE,
Mariana de Matos.

Espaço Fluxo
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Esta petição foi criada em 26 abril 2012
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