MANIFESTO POPULAR - O Rio Madeira é Patrimônio Vivo e Inalienável da Amazônia.
Para: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) Secretaria de Estado da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer de Rondônia (SEJUCEL) Secretaria Municipal de Cultura e Esporte de Porto Velho
Nós, Povos Indígenas, Comunidades Tradicionais, moradores urbanos, mulheres, juventudes, cidadãos, cidadãs e defensores do Patrimônio Amazônico, vimos, por meio deste, fazer ecoar nossas vozes aos órgãos de Proteção ao Patrimônio Histórico Material e Imaterial, às Autoridades Públicas, aos veículos de Comunicação Social e à Sociedade Civil em Geral, afirmando que o Rio Madeira — denominado historicamente como rio Iruri, “o rio que treme” — é Patrimônio Vivo e Inalienável da Amazônia.
Portanto, o tombamento histórico e cultural do Rio Madeira não é um mero ato burocrático de preservação de memórias passadas, mas uma medida urgente de legítima defesa da vida, da identidade e do futuro da Amazônia Ocidental.
O maior afluente do Rio Amazonas não pode continuar sendo enxergado pelo poder público e pelo capital transnacional apenas como uma “hidrovia ou corredor logístico” ou um “manancial de megaprojetos hidrelétricos”. O Rio Madeira é um território vivo, cujas águas carregam a cosmologia de dezenas de povos indígenas, o sustento de populações tradicionais, a diversidade de outras formas de vida e a própria fundação dos núcleos urbanos que dele dependem para existir e coexistir.
Para os povos indígenas — os habitantes originários destas margens —, o Rio Madeira é o eixo central de suas existências. O avanço predatório do garimpo ilegal de ouro, a contaminação por mercúrio e o barramento de suas águas por usinas hidrelétricas destroem não apenas a fauna aquícola, mas locais sagrados de memória e cemitérios ancestrais. Tombar o Rio Madeira significa reconhecer e proteger a materialidade e a imaterialidade desses territórios, blindando-os contra o etnocídio e o ecocídio disfarçado de progresso.
Para as populações tradicionais, como ribeirinhos, pescadores, extrativistas e quilombolas, o rio é a “rua”, o prato de comida e o altar de suas manifestações culturais e espirituais. O ciclo de cheias e vazantes molda o modo de vida amazônida. Sem o rio limpo e fluindo livre, devido à construção de hidrelétricas, à expansão da produção de grãos com muito veneno e à intensificação da hidrovia comercial com grandes barcaças — provocando desbarrancamentos, acidentes e mortes —, rompem-se a segurança hídrica e alimentar e a transmissão de saberes seculares, forçando o êxodo rural e o consequente inchaço das periferias urbanas.
Nos núcleos urbanos, desde vilas a capitais como Porto Velho, o Rio Madeira é a razão de ser da ocupação territorial. Os ciclos da borracha e a própria identidade cultural urbana nasceram de sua força. Ignorar a degradação do rio é decretar o apagamento da nossa memória urbana, transformando nossas cidades em espaços descolados de sua própria geografia e história. Estes espaços urbanos se sobrepõem a territórios indígenas, mas, ainda assim, são espaços de resistência indígena, negra e popular.
Olhar para o Rio Madeira sob a ótica das antigas, atuais e novas gerações exige responsabilidade intergeracional:
As antigas gerações nos deixaram um legado de convivência e respeito com as águas, traduzido em histórias, técnicas de pesca e festas populares.
As atuais gerações sofrem o impacto imediato da degradação ambiental, entre secas e inundações, restando-lhes o papel histórico de resistir e exigir a reparação dos erros cometidos nas últimas décadas.
Às novas gerações resta o risco de herdar um rio morto — mero canal de lama contaminada, onde a vida e o sagrado já não habitam.
Diante do exposto, este **MANIFESTO** reivindica que o **Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)** e as **Secretarias de Cultura Estadual e Municipal** iniciem e garantam o processo de **Tombamento Histórico e Cultural do Rio Madeira**, por seu complexo arqueológico, etnográfico, paisagístico e histórico.
Proteger o Rio Madeira é salvaguardar os direitos da natureza, a soberania hídrica, alimentar, histórica e paisagística, a diversidade biológica e a dignidade humana daqueles que fazem da floresta e das águas o seu lar. O progresso que destrói as bases da vida e da memória não é desenvolvimento; é devastação.
Pela vida, pela história e pelo futuro do Rio Madeira e das novas gerações.
Nós, povos, comunidades, organizações, movimentos sociais, cidadãos e cidadãs abaixo-assinados, somamos nossas vozes e **reivindicamos o Tombamento Histórico e Cultural do Rio Madeira.**
Rio Madeira, Marcha pelo Clima, Porto Velho, 20 de setembro de 2026.