Contra o concurso público da Prefeitura Municipal de Viçosa- MG Edital n°01/2012 para provimento de vagas da Secretaria Municipal de Educação.
Para: Exmo. Sr Prefeito Ângelo Chequer
Os candidatos que realizaram à prova no dia 15 de março de 2015, denunciam a péssima qualidade da prova e as irregularidades ocorridas durante a sua aplicação. Algumas das irregularidades: “a entrega do gabarito fora da sala, dando margem as fraudes; ausência de confirmação do real candidato, por meio da carteira de identidade; troca de informações entre os candidatos no decorrer da realização da prova; regras diferentes em cada sala; conteúdo da prova não compatível ao cargo; candidatos sentados praticamente em dupla para disputar o mesmo cargo; erros absurdos na prova; ausência de fiscais acompanhando candidato ao banheiro e fiscais fazendo a prova e anotando o gabarito, ao invés de fiscalizar”.
Além das irregularidades a prova elaborada pela empresa Reis e Reis auditores associados de língua portuguesa assim como as dos demais conteúdos foram de péssima qualidade. Conforme demostra o parecer técnico elaborado pela Prof.ª Dr.ª Mônica Santos de Souza Melo (UFV) sobre a prova de português:
PARECER – AVALIAÇÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA – CONCURSO PÚPLICO DA PREFEITURA MUNICIPAL DE VIÇOSA
AUTORA: Prof.ª Dr.ª Mônica Santos de Souza Melo (UFV)
1. Com relação à abordagem A prova de Língua Portuguesa se compõe de 10 questões. Dessas, cinco questões são de interpretação de textos e cinco são de gramática.
Nas cinco questões de interpretação de textos, observa-se que duas delas giram em torno de uma charge, cuja fonte não é mencionada, ambas de conteúdo altamente ideológico. A segunda expressa crítica ao Governo Federal, atitude altamente condenável em concursos públicos, que devem ser isentos e não podem expressar posicionamentos políticos de qualquer ordem. Esse caráter ideológico já justifica a anulação das duas questões.
Nas cinco questões de gramática, quatro delas (questões 6 a 9) exploram uma abordagem meramente classificatória e formal da gramática normativa do português, o que revela uma visão antiquada dos conteúdos que são priorizados no ensino de Língua Portuguesa atualmente, preconizados pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. A abordagem adotada revela, portanto, um retrocesso e uma falta de atualização em relação aos conteúdos que têm sido valorizados no ensino de Português e explora aspectos do conhecimento gramatical que há décadas já não têm sido exigidos em concursos públicos por seu caráter obsoleto.
2. Com relação a problemas gramaticais Tratando-se de uma prova de Língua Portuguesa, é inconcebível que as questões tragam, em seu enunciado e nas alternativas de respostas, erros gramaticais. Eles aparecem de forma abundante ao longo de toda a prova. Abaixo, alguns exemplos:
2.1. erros de pontuação:
várias ocorrências de vírgula separando sujeito do predicado, que é um erro gritante de pontuação:
-questão 1: “Ambos os textos, explanam a saudade”
-questão 5: alternativa b- A primeira situação entre o garoto e o homem, mostra que a Governante (...)
Falta de vírgula, em situações em que ela é obrigatória:
-questão 05: alternativa c: “que a educação além de ser papel dos pais é função primordial do Estado. (a oração “além de ser papel dos pais” deveria vir entre vírgulas).
2.2.Erro no uso do acento indicativo da crase: ausência da crase em situações em que ela é obrigatória:
- questão 1- alternativa c: “que atualmente deram lugar a modernidade”
2.3.Uso de vocabulário inapropriado
-questão 1- alternativa c: Ambos os textos explanam (??) a saudade (...)
2.4.Períodos sintaticamente mal-construídos: sentenças truncadas, com problemas sintáticos graves, tais como:
-questão 1, alternativa b: “somente o texto 1 o autor se opõe” – Dois sujeitos para um só verbo no singular! O correto seria “somente no texto 1 o autor se opõe”.
-questão 5- alternativa b: (...) a Governante deveria mudar seu discurso, quando de trata de prioridade no seu governo;”
- questão 9, altenativa c: “O verbo no modo indicativo não há emprego de certo grau de certeza (...)”
– o sujeito “o verbo no modo indicativo” demanda um predicado que não aparece na oração, tornando o período agramatical.
- questão 3, alternativa b- “Para cessar as desigualdades entre alunos de escola pública e particular, basta à educação de ambas serem efetivadas no mesmo nível, dependendo unicamente dos educadores”. Aqui, há dois problemas graves : 1. à educação, que deve ser o sujeito da oração seguinte, não pode ter crase; sendo o sujeito “a educação” o verbo que se segue deve concordar no singular e não no plural, como está na alternativa. Assim, o correto seria “ basta a educação de ambas ser efetivada (...).
2.5. construções inadequadas ao padrão da língua culta do português
- questão 5, alternativa a: A crítica feita na charge é o questionamento feito ao garoto sobre a falta de educação com os adultos (...)
- questão 5, alternativa d: “o contrário do que o garoto demonstrou na imagem”
- questão 9, alternativa d)”o emprego no modo pretérito ocorre quando a ação é atual.” (deveria ser o emprego do modo pretérito...)
2.5.Erro na articulação do enunciado à resposta: As alternativas às questões devem completar o enunciado, sintática e semanticamente. Não é o que acontece em:
-Questão 2) ENUNCIADO: A charge acima retrata:
Altenativa c) Critica a desigualdade entre as duas educações.
Altenativa d) Demonstra que o aluno da escola pública (...)
Observem que se encaixarmos o enunciado às alternativas acima, teremos um período sintaticamente mal construído, ou seja, um período agramatical:
(?) A charge acima retrata demonstra a desigualdade entre as duas educações (enunciado + alternativa c)
(?) A charge acima retrata demonstra que o aluno da escola pública (...) (enunciado + alternativa d)
Esse problema justifica a anulação da questão, uma vez que a alternativa dada como correta é exatamente uma dessas construções agramaticais (alternativa c)
3. Problemas teóricos
Algumas questões que exploram a gramática do português apresentam aquilo que eu classificaria como verdadeiras “aberrações” teóricas, o que revela uma falta de competência por parte da equipe responsável pela elaboração das questões. Exemplifico:
3.1.Questão 8:
Alternativa a)”Os pronomes pessoais são os substantivos que apontam a pessoa do discurso.”
Essa opção, que conforme o gabarito da prova, é a alternativa correta, traz uma afirmação que deixaria qualquer gramático estarrecido: pronomes e substantivos são classes gramaticais distintas. É incorreto dizer que “pronomes são substantivos”. Além disso, os pronomes são uma categoria ampla e nem todos os pronomes “apontam a pessoa do discurso.” Esses dois problemas teóricos gravíssimos justificam a anulação da questão.
3.2.Questão 9 Alternativa b) “As desinências verbais ocorrem quando as flexões de número e de pessoa podem ser reconhecidas na parte final do verbo.”
Essa opção, que pelo gabarito, é a alternativa correta, também é incorreta. As desinências verbais ocorrem no verbo independente de serem ou não reconhecidas pelo falante da língua. A maioria dos falantes ignora o sentido da palavra desinência, mas as utiliza normalmente. Não é o reconhecimento por parte dos falantes que determina a ocorrência delas, mas uma necessidade inerente ao sistema morfossintático da língua.
3.3.A definição “Período é a frase que contém uma ou mais orações” é questionável, uma vez que, para muitos autores, frase e período não são noções equivalentes. Uma enunciação como “Fogo” é uma frase, mas não é um período. Um período, seja ele simples ou composto, se define pela presença de um verbo, o que não ocorre com a frase. Isso mostra um desconhecimento teórico de noções básicas da sintaxe do português. Além disso, qualquer definição, num concurso público, deve vir acompanhada da identificação de sua origem.
4. Utilização de imagens, sem identificação das fontes: no texto há utilização de duas charges, sem identificação de fonte e/ou autoria, o que é inconcebível em textos de qualquer ordem, especialmente em concursos públicos, pois a autoria de um texto é legalmente resguardada, sendo os organizadores da prova sujeitos a sanções de ordem legal por essa omissão.
5. Interpretações incorretas, nas questões de interpretação textual:
Questão 3- Trata-se de uma interpretação de uma charge, cuja fonte não é informada, o que já é um problema, pois todo material publicado de autoria de terceiros deve explicitar essa autoria e a publicação de onde foi retirado. (O mesmo problema ocorre nas questões 4 e 5)
Retomando a questão da interpretação da charge, segundo o gabarito é correta a seguinte alternativa:
“Para cessar as desigualdades entre alunos de escola pública e particular, basta à educação de ambas serem efetivadas no mesmo nível, dependendo unicamente dos educadores.”
Trata-se de um equívoco gritante atribuir essa interpretação à charge apresentada, uma vez que nela nada leva a deduzir, direta ou indiretamente, alternativas para a solução de desigualdades sociais e, muito menos, que essas alternativas seriam de responsabilidade exclusivamente dos educadores.
Verifica-se aqui uma interpretação totalmente arbitrária da imagem, que não possui qualquer respaldo de ordem objetiva que possa justificá-la.
NÃO ACEITAREMOS ESSA PROVA E NEM AS IRREGULARIDADES!